A música breve e as noites longas de Rubens Adati

Com segundo disco do projeto Meu Nome Não É Portugas, o produtor e compositor medita sobre o concreto e o irreal embutido nos relacionamentos entre humanos. Ouça seu LP “Fraga e Sombra”

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Fotos: Déborah Moreno

“Fraga e Sombra”, na verdade, é um poema de Claro Enigma (1951), de Carlos Drummond de Andrade. Os versos aparecem em um período da carreira do célebre autor brasileiro em que ele se debruça sobre a condição humana mais arduamente, tornando-se uma figura mais introspectiva, reflexiva. O pessimismo paira no ar, a ameaça nuclear, o auge da Guerra Fria… Tudo isso contorna o soneto que coloca Drummond em meio a uma imensidão de terra seca com rochas de diversos tamanhos – as fragas – a observar a sua própria sombra. Como no reconhecimento do vazio e a da sua pequenez frente ao universo. O desejo de liberdade.

Esse é o ponto de partida de Rubens Adati para o segundo disco de seu projeto Meu Nome Não É Portugas, lançado nesta sexta-feira com exclusividade pelo Monkeybuzz. Com o mesmo nome do poema, o registro explicita o amadurecimento do artista em várias frentes – construção conceitual, composição, produção –, mas não abandona a versatilidade de trabalhos anteriores. Aqui, no entanto, seu papel de frontman chega propositalmente reduzido.

“São dois motivos principais para ter tomado essa decisão. O primeiro é porque ouvi muita gente dizer que eu canto mal.”, brinca. “Segundo, por um desejo meu de explorar mais as minhas habilidades como produtor e compositor uma vez que estudei por anos em conservatório e hoje faço faculdade de música.” Assim, outros artistas ocupam o espaço deixado por ele. São doze participações externas no total. Em seu Inhamestúdio, ele gravou todos os instrumentos – com exceção da bateria da última faixa, liderada por Daniel Fumega (Bike) – e sua voz aparece nas músicas, mas cumprindo papel secundário.

Se em Sob a Custódia da Distância (2017) são destrinchadas as diversas sensações (físicas e psicológicas) que a distância suscita, em Fraga e Sombra, Rubens reflete sobre “os diversos lugares de se relacionar”. Eles são, segundo ele: as alegrias, os vazios, as incertezas, os medos e as frustrações geradas pelo afeto por alguém, seja ele romântico ou não. “Para mim, o poema do Drummond trabalha a ideia do concreto e do não concreto a partir da imagem da fraga e da sua própria sombra”, analisa. “São duas pessoas que, ao se encontrarem, se tornam uma só, se livram de seu próprio ego. Busquei explorar nas letras cada possibilidade de situações como essa.”

Para mim, o disco é um discurso. Não consigo fazer dez músicas de Dreampop. É como falar tudo sempre na mesma entonação – Rubens Adati

“Competição”, então, abre o disco falando sobre os ciclos viciosos do ser humano, com Felipe Vellozo e Ale Sater (Terno Rei) proferindo versos repetidos sobre uma rítmica linear e causando, com isso, algo como uma sensação de tontura. Em seguida, Marcelo Popoto Martins (Raça) empresta sua voz para “Pétalas”, uma canção sobre a culpa de colocar muitas expectativas sobre alguém. Em “Ilhados”, Papisa canta as agruras de um casal que ainda não se entregou completamente ao relacionamento. Gabriel Ventura (Ventre) aparece em “Erro Simples”, influenciada por Mala (2013), de Devendra Banhart, ao dissertar sobre a angústia de ser incapaz de corrigir algum problema que, supostamente, teria uma solução fácil.

A única faixa escrita em inglês, “The Wolves Way”, chega com um arranjo de violão melódico à la Nick Drake com participação de André Travassos (Moons) cantando sobre como recuperar a identidade depois de se doar a alguém. Depois, “Respiro” é uma espécie de interlúdio no piano com pouco mais de um minuto. Novamente, Ale Sater – agora ao lado de Marcelo Vogelaar – empresta sua voz para “Ao Avesso”, o primeiro single do disco. Na penúltima música, “Raiz”, tem versos cantados por YMA que, curiosamente, são complementados pelas timas do rapper francês Swan Univers. “Ele estava viajando pela América Latina, gravando uma música em cada país visitado e um amigo fez a conexão entre nós”, explica Rubens. E o disco termina com uma valsa: “A ideia desta música é que ela não seja ouvida com atenção”, propõe. “É para ouvir enquanto você faz outra coisa. Algo como: o disco já acabou, agora aproveita esse som para pensar em tudo o que você ouviu até aqui.”

Apesar der se aprofundar no estudo das cordas no momento, desde o primeiro EP Endopassos (2016), Rubens trabalha com experimentações e uma paleta diversa de influências: a psicodelia de Pink Floyd, a brasilidade de Milton Nascimento, o eletrônico de Gorillaz e Daft Punk, o folk melancólico de Jackson C. Frank… Embora reconheça que a associação de gêneros e classificações seja inevitável pelo público e crítica, ele afirma que sempre quis deixar a sua versatilidade em evidência. Fraga e Sombra  talvez seja a expressão mais grave disso. “Para mim, o disco é um discurso. Não consigo fazer dez músicas de Dreampop. É como falar tudo sempre na mesma entonação”, declara. Isso posto, para o futuro, Rubens quer ficar cada vez mais próximo da MPB Instrumental. Fraga e Sombra talvez seja o ensaio para este novo momento do jovem artista que não hesita ao se arremessar a grandes mergulhos.

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