Ouça: banda-fôrra

Quinteto paraibano define seu som a partir do português arcaico e de encontros musicais bem brasileiros

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banda-fôrra (assim mesmo com o acento) é um termo do português antigo, o nome dado aos escravos nascidos de pai branco e mãe negra e escrava. Nasciam livres, mas pela metade – ‘banda’ tem significando justamente de parcela e ‘fôrra’, de alforria. Alguns trabalhavam em regime parcial e tinham direito de economizar para comprar para si a sua outra metade e gozar da liberdade”, nos conta o vocalista Gustavo Limeira.

É assim, metade livre e metade escravo, que o quinteto paraibano define seu som. Do antigo português para a tradução musical dos dias de hoje, o significado não mudou tanto – pelo menos no sentido da produção do grupo ter seu aspecto metade brasileiro, metade estrangeiro. A brincadeira que o Tropicalismo fez com o Pop/Rock mundial nos anos 70 é repaginado (em outro contexto, é claro) pela banda, de forma a transitar pela Psicodelia feita ao redor do mundo sem perder toda a ginga e suingue tipicamente brasileiros.

Não é som para gringo ver, não é som de ufanista elitista. É a música que emana de quem está ligado no que está acontecendo ao redor do mundo, assim como está ciente do que acontece e já aconteceu em seu próprio quintal. “Tem um texto em que Darcy Ribeiro diz que um dos traços mais marcantes da cultura brasileira é a busca de uma autenticidade que nunca é alcançada. Curiosamente, os artistas que conseguiram chegar mais perto desse objetivo são os que ignoraram os traços do que se consideraria ‘autenticamente brasileiro’ em sua época: dos poetas concretos à Tropicália ao Manguebeat”, aponta Gustavo.

“E hoje, tentar fazer coisas nos moldes dessas escolas também seria uma busca vazia por autenticidade. Existem movimentos musicais no Brasil que escapam à ‘linha evolutiva oficial da MPB’: Rock Psicodélico Sertanejo dos anos 60 e 70, Prog Mineiro, a música experimental paraibana. Acredito que nenhum desses movimentos se propôs a ser regional a priori, mas as influências do lugar onde você vive acabam aparecendo. Nunca pensamos: ‘vamos fazer a música de tal jeito para ela soar paraibana’. No final ela vai soar paraibana de qualquer maneira, porque somos paraibanos. Isso é bem libertador. A música brasileira dialoga com a música internacional quando se despreocupa em parecer brasileira. Fazemos música brasileira, paraibana, mas sem estereótipos geográficos”, completa.

E não é de espantar que o grupo tenha nascido de outro que repaginava as músicas de Caetano Veloso, a extinta Banda Uns. Todo respeito a Cae, mas a magia começou de verdade quando o quinteto parou de recriar sua obra e decidiu compor suas próprias canções. “Foi natural. Num dado momento, convergimos as instigas para tocar juntos, mas nunca havíamos composto antes. A música da Tropicália era/é um nosso gosto comum, Caetano mais ainda. Foi escola e foi massa demais”, comenta o músico sobre essa mudança.

Além de Veloso aqui, há influências de nomes como Clube da Esquina, Cidadão Instigado e outros medalhões da música tupiniquim. Ao mesmo tempo, há tendencias modernas de nomes como Tame Impala Blundetto, Herbie Hancock e até mesmo o duo brazuca Glue Trip. O resultado desse encontro é ótimo. São músicas cantadas em nossa língua materna e que afloram elementos de nossa cultura, embebidos em aspectos musicais híbridos entre nossos regionalismos e psicodelia sessentista. Um verdadeiro caldeirão de referências globais e um reflexo de nossa própria cultura.

O grupo existe de fato somente desde o ano passado e mesmo com pouco tempo de estrada já foi escalado em alguns dos festivais mais importantes do circuito alternativo de João Pessoa, cidade natal da banda. O mais interessante é que o quinteto já tinha repertório, mas nenhum registro de estúdio dele até então – o que não impediu sua participação nesses eventos. O primeiro EP do grupo foi lançado somente em maio de 2015 – e posso te dizer que está muito bom.

banda-fôrra é composto de seis faixas que transitam entre esses terrenos férteis de um brasileirismo não arquitetado e as diversas possibilidades da Música Psicodélica, que Gustavo explica não ser algo planejado: “Psicodelia é uma palavra bem vasta. Eu acredito que músicas nessa categoria estão no raio do nosso interesse, mas não foi algo que buscamos conscientemente na produção desse EP de estreia. Foi uma categorização que veio de fora para dentro. Nem sei se fico completamente convencido por ela. Nem sei se preciso”. No fim das contas, o grupo trata de liberdade e possibilidades e não de um enclausuramento em moldes ou estéticas.

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ARTISTA: banda-fôrra
MARCADORES: Ouça

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Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts