Ouça: Não Ao Futebol Moderno

Som nostálgico e atemporal dos gaúchos traz o Emo em seu estado mais cristalino

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“Nostalgia ficou pra trás/Tem uns tetos que não dão mais”. É assim que começa Onde Anda Chico Flores?, inesquecível e, sim, nostálgica obra de estreia dos gaúchos do grupo Não Ao Futebol Moderno. O EP, pérola sonora que insiste em nos levar ao passado em detrimento ao futuro, foi lançado pela Umbaduba Records de Porto Alegre e mostra-se digno de ser ouvido constantemente. Sua lacônica abertura 2014 revela que serão poucas as palavras que irão nos conectar ao som do grupo – quando surgem, tem doses contadas de lirismo e criam seus momentos mais bonitos.

Do começo ao fim, temos a sensação de que a combinação precisa de instrumental com pequenos devaneios é o bastante para nos fazer abraçar a sua causa adversa à mudanças. As suas inspirações aparecem já nos primeiros timbres de 2014 – American Football e a sua melodia Emo em compassos lentos e dolorosos. Enquanto os gaúchos nos trazem exatamente para 1999, ano em que o único disco dos norte-americanos foi lançado, seu som revela-se de um espírito lírico intransigente que atos do mesmo Rio Grande do Sul, como Descartes, proporcionam. San Martin traz a tristeza nas pequenas palavras de seu verso final (“Me surpreendo com os meus amigos /mas quase já não falo sobre isso /me canso toda vez /me canso de vocês”) enquanto a saudade aparece no instrumental por conta de sua fluidez oceânica e seus timbres cristalinos – por vezes, nos vemos indo e voltando ao seus últimos momentos para sentir o seu gosto novamente.

Rápido e efêmero, o pequeno EP de onze minutos revela-se belo como a vida muitas vezes pode ser – dura o quanto pode durar, mesmo que seja pouco. Talvez a duração e o nome da banda tenham uma relação intrinseca escondida: a modernidade chega a passos largos no mundo atual enquanto nos damos pouco trabalho para sentir as pequenas e curtas coisas. Como explicar a alegria ao ouvir a instrumental, noventista e cheia de melancolia à la Slint em Laje? Seu fim súbito e irresoluto é igual ao amor do verão que pareceu eterno enquanto durou.

Os timbres abertos, esperançosos e desenvolvidos para transmitir sentimentos sem palavras de Convergência coincidem com as letras sussuradas: “não sou mais covarde a ponto de me explicar /não sou mais covarde a ponto de me entregar /vou sair da ansiedade”. A melhor faixa do disco pode ser melhor explicada quando entendida em duas partes. Lição para Vícios Inutéis segue de onde a anterior acaba, travando um diálogo raivoso com sua contra-parte para finalmente “sair da ansiedade”.

A oscilação do espectro sentimental das duas músicas – saída da esperança para a cólera – pode explicar o microcosmo sonoro de Onde Anda Chico Flores?, um EP que parece atemporal para o grupo e que já nasce nostálgico. Sua estética é impressionante, bonita e limitada ao mesmo tempo – passa constantemente a ideia de que a passagem do tempo é sempre acompanhada de um processo mutante e que pode nos revelar, ao final, somente ruído (como acontece nos últimos instantes de Lição para Vícios Inutéis). Nos faz constantemente questionar: até que ponto as coisas mudam e se tornam estranhas a nós mesmos?

O Emo é a inspiração de Não Ao Futebol Moderno, gênero que mostra-se revisto à exaustação por outros grupos, mas que ganha corpo e consciência própria aqui. Os gaúchos podem até saber que nostalgia pode ter ficado para trás, mas seu som continuará a nos levar sempre ao passado, nos fazendo questionar se gostamos ou não do que nos tornamos. Ouça para se emocionar e ter esperanças que a negação vem aos poucos.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.