Resenhas

박혜진 Park Hye Jin – Before I Die

Produtora revelação usa o minimalismo eletrônico a serviço de criações que funcionam tanto dentro dos quartos como nas pistas de danças

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Ano: 2021
Selo: Ninja Tune
# Faixas: 25
Estilos: Lo-fi Hip Hop, R&B, House
Duração: 43'
Produção: 박혜진 Park Hye Jin

É impossível medir com precisão o tamanho da influência sul-coreana na cultura Pop atual. Do o boom dos k-groups, aparecendo em peso na Billboard (BTS, Blackpink, Twice..), à popularização das novelas coreanas (de público fiel no Brasil), passando pelo tamanho de empresas de tecnologia de ponta, que se destacam no cenário mundial. Este alcance cada vez mais expansivo deixa claro como a arte e o entretenimento da Coreia do Sul são ambiciosos. Os clipes de K-Pop são majestosos, com o impacto visual e o cuidado estético de Michael Jackson ou Beyoncé. No cinema, a mesma coisa, vide Parasita, capaz de agradar público e crítica na mesma intensidade. Mas, em um ambiente tão rico, há também artistas sul-coreanos que propõem uma abordagem mais minimalista, como 박혜진 Park Hye Jin, compositora, rapper e multi-instrumentista nascida na Coreia do Sul e criada nos Estados Unidos.

A artista traz uma proposta que anda na direção de conterrâneas como yaeji e DJ Sin: a moderação como forma de narrativa. Ao contrário dos idols, o mundo de Park Hye Jin circunda pela simplicidade na tentativa de apresentar ao ouvinte uma perspectiva mais sincera de sua realidade. Não interessa os grandes estádios e os shows repletos de fogos de artifício e aparatos tecnológicos. Aqui, a música eletrônica serve para o que está ao redor e imediatamente perto. Como resultado disso, seu EP IF U WANT IT (2018) cativou o público com uma mistura entre singeleza e raízes underground. Estava claro que não se tratava de mais uma Peggy Gou e seus sets gigantescos para rave. Park Hye Jin parece mais interessada em compor um diário através da música do que qualquer outra coisa. E esta primeira semente apresentada no EP ganha uma forma mais consolidada e, se é que é possível, ainda mais sincera, em Before I Die.

Seguindo firme na tradição eletrônica de sua carreira, Park Hye Jin rejeita qualquer rótulo que a possa definir com exatidão. A artista se move por entre o House, Hip Hop e R&B com muita astúcia. Há um manejo habilidoso na construção das faixas, a fim de que o registro não se torne abrupto demais, mas também não canse o ouvinte. É feito sob medida – e as medidas em questão são as próprias referências da artista. As texturas sonoras oscilam entre a tecnologia de ponta e o saudosismo dos timbres analógicos – uma outra poderosa dinâmica de Park Hye Jin, que coloca este ambiente construído como um lugar atemporal.

Com acordes soturnos de piano, Park Hye Jin inicia o disco com envolvente “Let’s Sing Let’ s Dance”, um misto de  House apimentado com acordes R&B. “Good Morning Good Night” deixa as batidas em segundo plano para conduzir o ouvinte por texturas mais fluidas e etéreas, algo como um Lo-Fi Hip Hop misturado com a Ambient. “Never Give Up”, mais marcada, soma o Trap à sua narrativa, saindo do campo da imaginação e entrando nas raízes da Dance Music. “Where Are You Think”, por sua vez, soa como uma espécie de representação da mente acelerada de Park Hye Jin, com um arranjo minimalista das batidas eletrônicas. “i jus wanna be happy” encerra o trabalho com ecos das diferentes vozes da artista, como se quisesse mostrar um pequeno excerto de fluxo de pensamentos.

Before I Die é construído de uma maneira que parece nos colocar dentro do quarto de Park Hye Jin – entre seus pôsteres e sintetizadores, escutando ela falar sobre como foi seu dia. Um cômodo familiar, capaz de deixa-la à vontade para expressar, por meio de suas produções, questões pessoais como a saudade de sua família, a rejeição, sua sexualidade e felicidade. E à vontade também para experimentar, do Lo-Fi ao House, do R&B às infinitas possibilidades do universo eletrônico. Em uma época na qual quartos se tornam locais de trabalho, ela cria uma espécie de respiro dentro da pandemia. Um respiro repleto de dança e sinceridade.

(Before I Die em uma faixa: “Where Are You Think”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.