Resenhas

100 gecs – 1000 gecs and The Tree of Clues

O caótico e potente repertório do disco de estreia do duo é ressignificado por produtores dos mais diversos cenários da música eletrônica

199 total views, no views today

Ano: 2020
Selo: Dog Show Records
# Faixas: 19
Estilos: Indie Rock, Shoegaze, Power Pop
Duração: 38'
Produção: 100 gecs (exec.)

Tudo que envolve 100 gecs diz respeito ao excesso. Até o nome do duo, curiosamente, ecoa essa noção de grandeza, referindo-se a um episódio no qual a integrante Laura Les comprou uma espécie de lagarto pela internet e acabou recebendo 100 por conta de um erro do site. O exagero também se estende para a construção da identidade sonora do grupo, que procura trazer um Pop bem polido, porém não poupa esforços em transformá-lo por meio do abuso de efeitos e distorções.

O duo produz músicas que dialogam (nesse caso, gritam) com a PC Music, mas também tiram suas referências de gêneros escondidos de décadas passadas, como Metalcore, Glitch Hop, Electro Screamo, além do início do Dubstep, entre outros. O termo maximalista parece ser apropriado para definir o estrondoso e caótico som dupla, que ganha cada vez mais popularidade por memes obscuros e cringe do TikTok. Assim, novos espaços são cada vez mais necessários para comportar a expressão mirabolante de 100 gecs. Não apenas espaços digitais, como as novas redes, mas espaços colaborativos.

Assim, essa urgência de colaborações acabou tomando forma sob o novo lançamento do duo. 1000 gecs and The Tree Of Clues poderia ser nomeado sob a simples alcunha de um disco de remixes. Porém, ele traz uma nova percepção daquele exagero do disco original. Os produtores aqui reunidos compartilham um interesse: a avidez por dissecar um produto tão complexo e rico como o disco original. É como se o exagero daqueles timbres e batidas transbordasse de um recipiente e os artistas convidados transformassem essas aparentes sobras em outros recipientes igualmente turbulentos. Uma espécie de reaproveitamento levado às últimas consequências.

O que também contribui para retirar do registro o status de “disco de remixes” é a forma com que cada música se comporta como uma nova modalidade. Cada faixa ganha vivacidade e identidade própria, todas construídas sob o mesmo alicerce destruidor de 100 gecs. Portanto, é um território totalmente inexplorado e a visão e releitura particular de cada produtor traz uma nova forma de experimentar desse caos. Seja reforçando-o, em faixas (se é que é possível) mais distorcidas do que as originais, ou batalhando contra.

Para abrir o registro, o grupo escolhe a parceria com um dos pais da PC Music, A.G Cook, trazendo uma versão Pop Futurista de “Money Machine”, repleta de beats pesados e violões MIDI digitais. “ringtone” ganha uma roupagem mais Hip Hop minimalista, com contribuição dos vocais de Charli XCX, Rico Nasty e Kero Kero Bonito. As referências da música Emo da metade dos 2000 para frente é representada pelo Rock de “Hand Crushed by a Mallet” de Fall Out Boy, Craig Owens, vocalista original da banda Chiodos e a sensação gótico-teen, Nicole Dollanganger. “xXXi_wud_nvrstøp_ÜXXx” traz Hannah Diamond e Tommy Cash em um mix caótico de PC Music padrão, porém acelerada a uma velocidade extrema, em referência ao Hard Trance/Eurodance da virada do milênio. “gec 2 Ü” também revisita os acelerados subgêneros eletrônicos, porém com uma contribuição vocal do excelente Dorian Electra.

Esses são alguns exemplos da efervescente pluralidade de referências que esta versão traz. A curadoria do duo é essencial para potencializar suas criações e ela certamente traz uma nova visão de uma construção que já era originalmente cativante. Em vez de combater a velocidade da contemporaneidade, 100 gecs a toma para si, elevando às últimas potências e criando um universo tão mirabolante e difuso que as palavras são meramente desnecessárias para descrevê-lo. Na verdade, as coisas aqui acontecem tão rápido que elas são insuficientes para dar conta. Um disco pilotado por produtores excelentes e que conduzem um trem desgovernado e curiosíssimo. Vale a pena se deixar ser atropelado pelo caos.

(1000 gecs and The Tree of Clues em uma faixa: “Hand Crushed by a Mallet”)

200 total views, no views today

ARTISTA: 100 gecs

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.