Resenhas

Caetano Veloso – Circuladô

Por sobre uma camada de experimentações e ousadias melódicas, o álbum destila críticas que cabem perfeitamente no Brasil dividido dos dias de hoje

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Ano: 1991
Selo: Phonogram/Philips
# Faixas: 11
Estilos: MPB
Duração: 39'
Produção: Arto Lindsay

Escutar Circuladô, álbum de Caetano Veloso de 1991, quase trinta anos depois de seu nascimento, nos dá a sensação de que a vida acontece em uma intersecção temporal. Por um lado, olhamos criticamente para o passado, entendemos o passar dos anos como um avanço histórico linear. De outro, o tempo da natureza, circular, faz com que eventos se repitam insistentemente.

Um girassol, circular como o tempo da natureza, ocupa a capa de Circuladô. Através da sua imagem, aparecem os olhos e a boca de Caetano, que vê, consome, e canta sobre o mundo. O disco, como costuma ser com a obra do artista, atravessa vários assuntos, misturando celebrações de família com críticas sociais. No entanto, analisá-lo no final da década de 2010 é perceber como pouco mudou desde então. Suas análises de conjuntura exigem a afirmação ‒ clichê ‒ de que elas continuam atuais. Aqui, a consciência histórica de Caetano afirma: “que deus te guie porque eu não posso guiar”. No entanto, é ele quem ajuda a promover a viagem pela imagem do Brasil que conhecemos.

Um dos retratos mais evidentes do Brasil em Circuladô é do país em crise. Na música “Fora da Ordem”, sem ser literal, Caetano canta a partir de um país governado por Fernando Collor, mas o entendemos muito próximo de nós. Em “O Cu do Mundo”, o cantor lamenta que “A mais triste nação / Na época mais podre / Compõe-se de possíveis grupos de linchadores”. Entre tempos intercalados, a gênese e o reflexo de algo repetido acontece no Brasil: “Aqui tudo parece / Que era ainda construção / E já é ruína”.

Com produção de Arto Lindsay, Circuladô resgata um pouco do experimentalismo de Araçá Azul (1973) ‒ em especial na faixa “Ela Ela” ‒ e exibe uma atmosfera de vanguarda e arte conceitual. A poesia de Haroldo de Campos, “Circuladô de Fulô”, é integralmente musicada na canção que dá nome ao álbum. Ela alude a dois tipos de cultura: a popular e a dos intelectuais.  “O povo é o inventalínguas na malícia da maestria”, diz um de seus versos: se Haroldo fala de um poeta embasbacado diante de um cantor popular, celebrando a inventividade dos cantadores nordestinos, Caetano assume o papel ambivalente de ser os dois ao mesmo tempo.

E como também sempre fez e sempre fará ‒ caso do recente show Ofertório, por exemplo ‒, Caetano traz a família para o centro de algumas canções, que caracterizam os momentos mais solares do trabalho. Um jovem adulto Moreno Veloso canta com doçura em “Itapuã” as melodias compostas em homenagem à sua mãe Dedé. Já em “Boas Vindas”, escrito para Zeca Veloso, na época ainda dentro da barriga de Paula Lavigne, evoca um samba de roda no quintal após um almoço de família. A percussão é um prato tocado com talher por Dona Edith e a mensagem, que se situa no mesmo meio do caminho entre discurso e experiência, nos diz: “Venha conhecer a vida […] Tem a morte e tem o amor / E tem o mote e tem a glosa / Eu digo que ela é gostosa”. 

Circuladô, portanto, é um álbum sobre essa dobra no tecido do tempo. Exemplo disso é a faixa “A Terceira Margem do Rio”, parceria com Milton Nascimento, que canta sobre a contemplação do silêncio. No percurso do álbum, a guitarra atonal, o piano do Jazz, o berimbau e o violão dialogam construindo uma sonoridade que fala ao gosto da MPB dos anos 1990, mas que traduz bem todas as camadas de significado que o álbum carrega. 

No começo da década, a tentativa de distinguir a cultura erudita da popular era a mais evidente e sintomática característica de uma sociedade cindida. Hoje, o Brasil é mais radicalmente dividido politicamente. No entanto, as fronteiras entre qual tipo de música serve a quem estão mais dissolvidas, muito por conta de artistas como Caetano. 

Hoje, com suas tragédias remissivas, o brasileiro parece entender melhor como se constitui desse desencontro, desse Brasil impossível e fora da ordem. Canta Caetano: “Cuspo chicletes do ódio no esgoto exposto do Leblon / Mas retribuo a piscadela do garoto de frete no Trianon […] Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem / Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem Juízo Final”.

(Circuladô em uma música: “Fora Da Ordem”)

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MARCADORES: MPB

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.