Resenhas

Bananagun – The True Story of Bananagun

Australianos até flertam com elementos da Tropicália e do Afrobeat, mas atingem êxito maior ao se escorarem na psicodelia típica do Rock britânico dos anos 1960

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Ano: 2020
Selo: Full Time Hobby
# Faixas: 11
Estilos: Psicodélico
Duração: 40'
Produção: John Lee

O grupo australiano Bananagun pede nossa orelha emprestada para apresentar a efervescência musical que é este The True Story of Bananagun, mas, ao mesmo tempo, coloca uma pulga atrás da mesma. Aqui, as intenções são boas e o clima, ensolarado, mas o clichê enviesado da banda em relação a suas inspirações revela uma ingenuidade problemática que não nos deixa apreciar este disco sem franzir um pouco a testa.

Bananagun é, de acordo com a própria, uma banda inspirada pelo Afrobeat de Fela Kuti e pela Tropicália – principalmente pela face mais psicodélica produzida pelos Mutantes. A descrição, disponível no Bandcamp, de que existe “um exotismo sedutor do mundo perdido na música de Bananagun” denota uma visão condescendente do grupo pela música estrangeira, como se nosso território musical fosse uma espécie de Eldorado à espera da colonização.

Alguns elementos das músicas nigeriana e brasileira aparecem nas produções, no entanto, parecem servir mais como adornos que delimitam a ideia do projeto. Uma audição mais atenta irá constatar que é na música inglesa que está a verdadeira inspiração de Bananagun. Experimentando décadas de 1960 e 1970 imaginárias, o grupo se diverte verdadeiramente quando mergulha de cabeça na Psicodelia, tão cara a seus conterrâneos. Grupos quintessenciais como Beatles e o Pink Floyd (do início da carreira) são pontos de apoio que ajudam a construir o verdadeiro imaginário dos australianos.

Tudo aqui é executado com segurança e a verve Pop de Bananagun é indiscutível. A lisergia deixa tudo fluido, os instrumentos (que são muitos, dado que a formação da banda é de oito pessoas) se interconectam e puxam o andamento para frente. O nível de competência em emular uma música de outra época é alto e, por isso, fica fácil compará-los a outros projetos semelhantes como King Gizzard and the Lizard Wizard – até a tendência narrativa do título indica uma afinidade conceitual entre ambas.

O nome do projeto, que traz a banana como elemento caricato, e a faixa de transição “Bird Up!”, de sons genéricos da selva, são alguns dos elementos mais problemáticos desta proposta de trabalho. Bananagun sabe emular bem a estética tropicalista, mas ignora que este resultado é o produto da história de um país, das experiências de vida e da subjetividade – daqueles que a vivenciaram. Bananagun, neste sentido, ignora a História e usa a inspiração como maquiagem e estratégia de marketing. Contudo, quando o grupo resolve envolver-se na Psicodelia por conta própria, aí sim brilha de verdade.

(The True Story of Bananagun em uma faixa: “Mushroom Bomb”)

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ARTISTA: Bananagun

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.