Resenhas

Agnes Nunes – Menina Mulher

Com referências que vão do samba ao R&B, estreia da jovem artista é uma expressão sincera e altamente relacionável sobre amadurecer

 345 total views

Ano: 2022
Selo: Baguá Records/Universal Records
# Faixas: 10
Estilos: R&B, Samba, Rap
Duração: 32'
Produção: Neo Beats e Kassin

Um disco é como um recorte de um artista. No repertório de um trabalho, seja ele do gênero musical que for, está espalhada uma significativa parcela de subjetividade de seu autor – um fragmento da compreensão de suas vivências. Entretanto, quando usamos o termo “recorte”, é preciso cuidado para não cometer algumas generalizações equivocadas. Apesar de estarmos diante de um pedaço daquele artista, não podemos nos apressar em dizer que aquele retrato é algo estático e precisamente delimitado no tempo. Muitas vezes, o recorte representa, na verdade, um processo. E é especificamente isso que a cantora e compositora Agnes Nunes traz em seu disco de estreia: a tradução de algo que se alastra pelo tempo.

Natural do interior da Bahia e radicada na Paraíba, Agnes chamou a atenção da internet – e de Elza Soares e Caetano Veloso – por meio de covers de Alceu Valença e Gloria Groove e, antes de sua estreia oficial, a jovem colaborou com nomes como Xamã, DJ Kelvinho e CMK. Em seu primeiro disco, a mistura de referências entre R&B, rap, funk e samba também se reflete na forma como Agnes constrói sua história – livre, em impermanência. Menina Mulher narra um processo comum a todas as pessoas e, ao mesmo tempo, extremamente particular: o crescer. O repertório mergulha fundo nas vivências de Agnes e a sinceridade e a devoção artística tornam a experiência altamente relacionável.

Com produção de Neo Beats e Kassin, o trabalho transita livremente por diferentes abordagens sonoras, enquanto Agnes repassa experiências e colhe ensinamentos. Ainda que se paute em texturas suaves e brandas, a sonoridades não deve ser confundida com o modelo genérico-brasilidades-voz-violão. Menina Mulher abaixa a nossa guarda para nos atingir no coração e é difícil não se identificar com algumas das frases pessoais da cantora. É como uma conversa íntima e franca.

As batidas sutis envoltas de pads confortáveis de “Intro” são o ponto de partida – o início de um diálogo que começa com ela nos dizendo “Me espera que eu vou tirar todo seu medo…”. A partir daí, “Mais Sincero” perpetua esse sentimento de coragem em uma batida lo-fi que ora fala de bravura, ora desabafa sobre a realidade (“Eu queria que fosse facin para cá, Eu queria que fosse facin para lá”); “Vish”, a mais antiga do disco – escrita quando Agnes, hoje com 19, tinha 15 anos de idade – reconhece a beleza e os obstáculos do amor (“Eu me lasquei”). “Papel Crepom” se baseia apenas em um piano para que a artista possa se recolher em sua tristeza, pedindo perdão e tentando se situar entre as dúvidas duras da vida. O disco se encerra com a faixa-título em um samba que amarra o que foi vivenciado, deixando a impressão de que Agnes percorreu um longo e intenso e caminho – e que certamente ainda irá trilhar muitos passos.

(Menina Mulher em uma faixa: “Vish”)

 346 total views

ARTISTA: Agnes Nunes

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.