Resenhas

Alabama Shakes – Boys & Girls

Esta nova banda acertou em cheio com seu disco de estreia ao resgatar sons de outras épocas em um Blues Rock com influências do Soul e uma excelente vocalista, na promessa de uma carreira que ainda tem muito a nos oferecer

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Ano: 2012
Selo: ATO Records
# Faixas: 11
Estilos: Southern Rock, Blues Rock, Soul
Duração: 36
Nota: 5.0

Poucas coisas são tão difíceis de medir e entender quanto o tempo. Esse é um tema frequente desde sempre nas produções de poetas e filósofos ao longo da História, e por mais que os físicos encontrem unidades de medida para mensurarmos sua passagem, o tempo permanece como uma variável subjetiva – no geral, cada um o percebe de um jeito para cada situação específica.

Eu pensava nessas coisas enquanto ouvia Boys & Girls pela enésima vez. Já em seu primeiro disco, a banda Alabama Shakes consegue mostrar uma maturidade no domínio e execução de sua linguagem musical que costumamos encontrar apenas em veteranos, principalmente pelos gêneros em que a banda cria (Southern Rock, Blues Rock, Soul), que costumamos ligar ao passado e visualizar “tiozões” tocando, não jovens que acabaram de sair do colégio.

A banda, inicialmente conhecida como The Shakers e só depois com o seu estado natal no nome, começou justamente na escola, em 2009, e rapidamente conquistou destaque – o que não é surpreendente, já que um som desses não tem como passar desapercebido.

O primeiro single do disco, Hold On, é também sua faixa de abertura e oferece uma boa prévia do que está por vir, com o melhor da energia natural dos estilos que a banda toca e explorando seus pontos mais fortes, como o vocal de Brittany Howard, a guitarra sempre expressiva e a capacidade que eles tem de fazer potenciais hits.

Sim, cada faixa do disco tem aquele brilho de algo que você ainda vai ouvir diversas vezes sem se cansar, de ficar pulando as músicas que o shuffle mandar até parar em uma do Boys & Girls, ou parar enquanto muda de canal ou estação de rádio. I Found You é uma dessas que já nasceu hit, com uma guitarrinha que fica na cabeça tanto quanto a letra. Já na primeira audição, ela soa familiar e original ao mesmo tempo, por isso não é difícil imaginá-la como uma das grandes músicas do ano.

Hang Loose continua a boa sequência de abertura, dando espaço à excelente Rise to the Sun, com seu poderoso refrão que cativa de vez qualquer fã de rock que ainda não esteja convencido do potencial desse disco. É aí que chega You Ain’t Alone, baladona à moda antiga, com piano e força na interpretação vocal. De quebrar o coração e cantar junto, é uma daquelas músicas de levantar as mãos no show e fechar os olhos.

Ela é seguida da curtinha Going to the Party, que é discreta união dos lados A e B do disco e (surpresa!) a segunda parte é ainda melhor. Prova disso é Heartbreaker, melancólica com vocais do que poderia ser a Janis Joplin de um coral gospel, presença certa em fossas ao redor do planeta em 2012. A faixa-título continua a vibe sentimental rockeira ao refletir sobre um fim de relacionamento com o choro da guitarra do blues, mesmo sendo a mais intimista de todo o disco.

E sabe quando você está vendo um show em que a banda e o público parecem estar cada vez mais à vontade, mais conectados à medida que o tempo passa? É essa a sensação deste final de álbum. Be Mine é uma verdadeira preciosidade, uma declaração de amor emocionada e emocionante, a prova final do talento da Alabama Shakes. Não tem como explicar de outra forma: É o clímax absoluto de um disco sem defeitos.

Em seguida, vem I Ain’t the Same, que soa mais pop que as demais desse lado do álbum – o que é excelente para recuperar o fôlego depois da anterior. O grande final vem com On Your Way, que mantém uma energia muito boa até seu último minuto, que encerra Boys & Girls mostrando o pique que a banda tem para continuar seu trabalho por ainda muitos lançamentos.

Repito: “um disco sem defeitos”. 36 minutos do melhor Rock vintage que a gente encontra por aí hoje em dia, aproveitando muito bem o legado das grandes bandas e artistas da raíz do gênero, daquele jeito que o pessoal contemporâneo faz tão bem. Eles podem até parecer fora de sua geração fazendo esse som de anos atrás, mas eles são a prova de que o tempo não está aí para ser medido, mas percebido hoje pela herança do que aconteceu ontem – e que venha o futuro para a Alabama Shakes.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.