Resenhas

Alt-J – The Dream

Em quarto álbum de estúdio, trio britânico mantém suas características mais inconfundíveis, mas abre espaço para pequenas (e agradáveis) surpresas

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Ano: 2022
Selo: Infectious Music Ltd/BMG
# Faixas: 12
Estilos: Alternativo, Indie
Duração: 49'
Produção: Charlie Andrew

O que esperar de uma banda que, mesmo sem se repetir, consegue ter sempre a mesma cara. Louvada e debochada pelo mesmo motivo, Alt-J tentou dar um passo na direção de outros ares, mas o que fica da audição de The Dream é aquela “cara” que conhecemos do trio britânico há uma década. A boa notícia é que todos seus maneirismos são, mais uma vez, muito bem empregados.

Seu quarto álbum de estúdio apresenta aquilo que fãs e haters da banda conseguem enumerar com grande facilidade: alternância de momentos quase silenciosos com outros de grande volume sonoro, grande percussividade, ênfase nas harmonias vocais e um clima que não é necessariamente dark, mas está longe de ser ensolarado. Os singles “U&Me” e “Hard Drive Gold” bem adiantaram que o disco seria novamente assim.

A intenção de explorar outras sonoridades fica, no entanto, cada vez mais nítida durante o repertório, a começar por “Get Better” e seu clima de voz, violão e um eventual piano por quase seis minutos para acompanhar o que é cantado – sobre a sensível situação de alguém que vê a pessoa amada na UTI e relembra momentos vividos juntos. Não há um paralelo direto com o que nossa memória revela sobre Alt-J, senão o timbre tão característico do vocalista e a beleza da faixa. “Chicago” começa na sequência com uma ambientação eletrônica que também surpreende, seja pelo contraste com sua antecessora ou pelo ineditismo das batidas quase dançantes ao longo da faixa.

Essas duas músicas, não por acaso ali no centro do repertório – como se fossem o coração do álbum –, denotam o foco narrativo que The Dream quer trabalhar. Segundo a banda, as composições foram inspiradas pelo gênero True Crime e por histórias da Hollywood de 100 anos atrás. Em meio à sonoridade tão complexa da banda (apesar do aparente minimalismo de “Get Better”), as letras estão sempre em segundo plano, com exceção das palavras cuja sonoridade é utilizada junto de seu significado (como “cocaine” em “The Actor”) e de alguns refrãos que saltam à audição, como o que dá nome a “Happier When You’re Gone”.

Os vocais e a guitarra quase percussiva de “Walk a Mile”, a cadência arrastada com inserções de vozes cruzadas em “The Actor” e o volume crescente de “Losing My Mind” situam o ouvinte na discografia da banda, que é um raro caso de obra que poderia ser ouvida no shuffle junto aos álbuns anteriores. Pelo menos, as músicas se ligam umas às outras não só pelos tais maneirismos, mas também pela alta qualidade de composição, arranjo e produção.

A atenção aos detalhes é uma característica tão forte em Alt-J que merece ser levada em consideração sempre que seu inconfundível estilo for mencionado. O que The Dream tem de diferente em relação aos anteriores não é o já descrito em “Get Better” e “Chicago”, mas como o trio amadureceu no estúdio para criar faixas minuciosamente impecáveis, cada qual com seu conjunto de pequenas surpresas que encantam e preenchem o ouvinte – ao menos se ele for fã do grupo ou habituado à sua sonoridade de sempre.

(The Dream em uma faixa: “The Actor”)

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ARTISTA: Alt-J

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.