Resenhas

Altin Gün – Yol

Terceiro disco do grupo turco-holandês viaja do Synthpop ao Rock Psicodélico e ao mesmo tempo mantém foco nas raízes da Turquia

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Ano: 2021
Selo: ATO Records
# Faixas: 12
Estilos: Anatolian Rock, Rock Psicodélico, Synthpop
Duração: 40'
Produção: Altin Gün e Asa Moto

Na década de 1960, o professor e etnomusicologista Robert E. Brown cunhou o termo World Music em uma tentativa de se referir às músicas folclóricas e tradicionais de cada país. A partir da década de 1980, este conceito começou a ser empregado de forma cada vez mais genérica para denominar qualquer estilo musical que saísse da norma americana/oeste-europeia – soma-se a esta nomenclatura algumas variantes como Música Étnica ou ainda Música Estrangeira. Estes nomes, grosseiramente, condensam diferentes culturas em uma categoria genérica “exótica” e isto, de uma forma ou outra, sobrevive até hoje – sobretudo no uso de samples descontextualizados de suas origens. Na contramão da superficialidade da homogeneização, surgem nomes como a banda turco-holandesa Altin Gün.

Desde a estreia em 2018, com o disco On, o grupo deixa clara a importância do legado da música turca. Aliás, não apenas a Música Turca, mas o Anatolian Rock: uma mistura que data da década de 1960 e funde elementos folclóricos da Turquia com o Rock ‘n Roll britânico. Assim, a mistura criada permeia os territórios da música psicodélica, acrescentando a ela um toque místico e quase espiritual de instrumentos turcos. Mas, para além do Rock, Altin Gün propõe que estas referências também aceitem elementos da música eletrônica – seja na escolha dos sintetizadores melódicos ou pelos timbres percussivos emprestados do House. Ouvir Altin Gün é mergulhar em uma amálgama de referências que, apesar de estarem muito bem coladas, ressaltam claramente as origens do grupo como um elemento primordial desta sonoridade, e não como um acessório de enfeite. Tamanha autenticidade chamou a atenção do grupo King Gizzard and The Lizard Wizard, que convocou o grupo para participar de seu festival Gizzfest.

Em seu terceiro disco, Yol, a banda continua sua busca por novas maneiras de potencializar referências folclóricas. Particularmente neste registro parece que há um movimento mais Hi-Fi, no qual cada som e elemento é dosado milimetricamente no processo de mixagem. A psicodelia conhecida de outros discos como Gece (2019) ganha uma malemolência Funky. O aspecto Rock cede espaço para ritmos mais típicos da música eletrônica, tocando no Synthpop e New Wave. Tudo isso enriquecido pela magia da música turca que coloca toda a emoção a partir de melodias características e vozes hipnotizantes. O que é mais curioso é que estas novas tentativas de levar a estética adiante apenas foram possíveis por conta do contexto limitador que estivemos vivendo.

Altin Gün sempre foi uma banda adepta do experimentalismo em estúdio, mas, com os obstáculos da pandemia, o processo de composição deste disco teve que ser revisto. O grupo embarcou em uma tendência moderna de mandar demos não terminadas de forma remota. Assim, cada membro poderia trabalhar isoladamente, modificando as faixas ao longo do processo de composição. O que poderia ser um entrave, revelou-se extremamente útil, pois tornava o processo mais dinâmico. No texto explicativo do disco, disponível na plataforma Bandcamp, o grupo dá o exemplo da faixa “Kesik Çayır”, que ficou empacada por algum tempo até que um dos membros conseguiu encontrar uma melodia perfeita. A banda afirma que essa dinâmica de poder focar especificamente em partes da música seria muito difícil no espaço físico do estúdio e que trabalhar assim, portanto, foi decisivo para que a sonoridade do grupo pudesse evoluir.

Apesar de curta, a primeira faixa, “Bahçada Yeşil Çınarv”, introduz o contexto geral do disco, a partir de um sintetizador meditativo junto à voz rouca da vocalista Merve Dasdemir. Aos poucos, as batidas vão tomando forma e “Ordunun Dereleri” mergulha o ouvinte em um ambiente obscuro e frio, típico do Pop americano dos anos 1980. “Kara Toprak” trabalha com guitarras mais Funk, em uma faixa que lembra o suingue de Khruangbin, revitalizado sob uma ótica mais psicodélica. “Maçka Yollari”, por sua vez, arrasta o ouvinte para a Disco Music, com uma batida firme e linhas de baixo profundas que nos convidam para dançar. Por fim, “Esmerim Güzelim” usa a famosa drum machine TR-808 para propor uma abordagem mais simpática, quase como um Pop comercial da década de 1960.

No geral, Yol sintetiza novos passos de Altin Gün, porém não rejeita as raízes turcas que direcionam sua música desde sempre. É como se esta sonoridade estivesse passando por um filtro dos anos 1970 e 80, permitindo novas conexões e fusões ainda mais ousadas. É um grande processo de amadurecimento que não se encerra aqui. Talvez por isso a escolha do título do disco tenha sido tão pontual: “yol” significa “estrada”. Uma estrada cujo final ainda é longe, mas a vista presente compensa cada minuto gasto na viagem.

(Yol em uma faixa: “Maçka Yollari”)

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ARTISTA: Altin Gün

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.