Resenhas

Amaro Freitas – Sankofa

Terceiro disco incrementa ainda mais os motivos que colocam o pianista recifense na atual linha de frente do nosso Jazz

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Ano: 2021
Selo: Far Out Recordings
# Faixas: 8
Estilos: Jazz, Instrumental
Duração: 45'
Produção: Amaro Freitas

Amaro Freitas revoluciona nossa música instrumental. Desde que fez sua estreia com Sangue Negro (2015), o pianista recifense angaria cada vez mais admiradores por conta de sua capacidade de dobrar as regras a respeito do que um disco de Jazz brasileiro pode ser. A sequência arrasadora com Rasif (2018), primeiro lançamento pela Far Out, ampliou essa reavaliação realizada por Amaro e rendeu elogios calorosos da DownBeat, bíblia do Jazz mundial. (“Uma abordagem tão única que é surpreendente”). Agora, Amaro apresenta um trabalho ainda mais lapidado e explosivamente criativo: Sankofa, seu terceiro disco, batizado com o nome de um símbolo Adinkira – conjunto de símbolos ideográficos dos povos acã, da África Ocidental. O pássaro místico, que voa de cabeça para trás, segundo Amaro, “nos ensina a possibilidade de voltar às raízes para realizar nosso potencial de avançar”. Os títulos das faixas fazem menção a personagens, lugares ou casos que, de acordo com o músico, representam “uma busca espiritual por histórias esquecidas, filosofias antigas e figuras inspiradoras do Brasil Negro”. E Amaro repassa a História a partir de uma musicalidade exuberante em todas as oito faixas.

Formado, além de Amaro (piano), por Hugo Medeiros (bateria e percussão) e Jean Elton (contrabaixo), o trio parece flutuar no vácuo e somos capazes de diferenciar cada som, cada elemento que compõe essa paisagem pintada pelas teclas. E, aos moldes do que Gil fez em Refazenda, o resgate feito por Sankofa soa, ao mesmo tempo, regional e universal. Carrega uma graça tropical, mas também ecoa um frenesi urbano. Amaro, um bastião do poder percussivo do piano, une essas atmosferas por meio de referências rítmicas de Frevo, Baião e Maracatu, e seu “baixo”, batucado ferozmente nas oitavas graves do piano, sempre nos guia a lugares imprevisíveis.

O repertório abre com a faixa-título, um épico deslumbrante que cresce lentamente, em uma profusão de sentimentos, até explodir, desnortear e, enfim, retornar confortável ao tema inicial. Já no cartão de visita, Amaro demonstra como, em meio à “confusão” rítmica, ele é capaz de passar um verniz minimalista que, sob ornamento sempre preciso de seus companheiros, produz melodias pegajosas e altamente assobiáveis. Ele não está aqui para testar limites harmônicos e se fechar em um ambiente hermético, intransponível. Parece lhe interessar mais o desafio de traduzir a complexidade ao invés de expandi-la e encharca-la de virtuose até que se torne inalcançável. Mas não entenda errado: Amaro senta o dedo magistralmente pelas 88 teclas. “Ayeye”, uma das grandes canções do disco, é um pacote completo: um tema ganchudo que segura e empurra toda a composição, a síncope e o regozijo. Solar, e aberta ao groove, a faixa tem um dos drops mais arrebatadores que eu ouvi recentemente – e faço questão de registrar a minutagem (1:26).

“Baquaqua”, primeiro single do projeto, celebra o africano Mahommah Gardo Baquaqua, que foi trazido ao Brasil como escravo e fugiu, em 1847, para Nova York, onde aprendeu a ler e a escrever. A composição mostra como Amaro sabe desafiar o ritmo, criando uma tensão permanente vinda de um cirúrgico descompasso entre o andamento e a tecla que bate como um sino de catedral. Baixo e bateria, como acontece em todo o disco, seguem a toada ditada pelo pianista, que subverte furiosamente expectativas rítmicas sem, entretanto, deixar de lado o suingue. Assim também se constrói a porrada “Cazumbá”, homenagem ao boi mítico da região tropical do Maranhão, uma viagem agressiva, psicodélica, guiada por uma martelada grave de piano.

Momentos mais serenos do repertório, como “Nascimento” (homenagem a Milton) e “Vila Bela” são respiros nos quais Amaro cria melodias categóricas, singelas e maravilhosas. A segunda é esparsa, meditativa, um solo lento em que o pianista, sutilmente, posiciona notas tortas como se fosse para a gente ficar esperto. É como se você chegasse em um lugar paradisíaco, mas também amedrontador. As dissonâncias de Amaro adicionam mistério à beleza, desconfiança ao encanto.

O Jazz brasileiro de Amaro não segue o caminho fusion-bossanovista de João Donato e Marcos Valle e não é dado a arranjos grandiosos, na linha de Eumir Deodato ou César Camargo Mariano. E também escapa da extravagância e do malabarismo de outros pares do Jazz contemporâneo mundial, como Christian Scott e Kamasi Washington. O pianista pernambucano é dono de uma linguagem particular, uma assinatura única, em tintas fortes, que faz com que ele não soe como nada por aí. Porque é muita coisa, ainda que seja Jazz e também seja brasileiro. Amaro, claro, tem seus ídolos e, em Sankofa, sentimos referências que vão de Moacir Santos e Chick Corea ao Neo Soul dos anos 1990, mas, ao fim do dia, fica evidente que é uma arte exclusiva e autenticamente de Amaro Freitas. E ele, novamente, dobra as regras a respeito do que um (fantástico) disco de Jazz brasileiro pode ser.

(Sankofa em uma faixa: “Ayeye”)

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ARTISTA: Amaro Freitas