Resenhas

Aminé – Limbo

No segundo disco oficial, rapper reflete sobre angústias e alegrias da vida de jovem adulto e, remanejando influências com originalidade, prova não ter sido só a brisa do verão de 2016

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Ano: 2020
Selo: Republic
# Faixas: 14
Estilos: Rap, Rap Alternativo
Duração: 44'
Produção: Aminé, Pasqué, Parker Corey, Yung Lan, Mac Wetha, T-Minus, Boi-1da, Vinylz

Aminé é, com certeza, um dos rappers mais subestimados da atualidade. “Caroline”, hit que chegou à 11ª posição Hot 100 da Billboard e alavancou a carreira do artista, chegou depois de Calling Brio (2015), bela mixtape cheia de produções de Kaytranada, e serviu de single do ótimo disco de estreia Good For You (2017). Entre a repetição da fórmula do verão ou a aposta em se estabelecer pela longevidade, Aminé, em 2020, escolheu a segunda opção.

Limbo (2020) é o verdadeiro segundo álbum da carreira do nativo de Woodlawn, bairro de Portland. Nos três anos que separam este disco do amarelo, vibrante e alegre Good For You ainda houve o lançamento de ONEPOINTFIVE (2018), mixtape na qual ele explora uma sonoridade mais voltada ao Trap e, mais especificamente, aos sons orientados pelas impactantes baterias do No Melody. No mais recente lançamento, há a mescla dessas sonoridades para falar do tema que mais assombra o jovem no século 21: “a crise de meia idade aos 25”, como diria Don L em “Êxodo e Êxito”.

Sabe aquele meme em que a pessoa olha para os outros outros ao redor e vê que o amigo casou, a ex-namorada teve o primeiro filho e o protagonista da história ainda não tem as certezas sobre a própria vida? São essas as questões sobre as quais Aminé se debruça em Limbo. Na busca de confrontar essa ideia de que, durante o início da vida adulta, já devemos saber lidar com tudo, Aminé, de apenas 26 anos, admite que ainda está aprendendo a lidar com administração de dinheiro, relacionamentos, paternidade – seja como filho ou como futuro pai –, além de, obviamente, a carreira de rapper e realizações profissionais. Esse cerne temático, somado à preocupação em criar um legado de bases firmes, resultou no melhor trabalho da carreira de Aminé.

“Beat so cold made Aminé want to open up”. Durante todo o projeto, ele manifesta que um dos pontos importantes para o amadurecimento é a luta para se abrir e demonstrar emoções. “I’m a west side nigga, we don’t show signs”. O sentimento de uma área cinzenta e incerta já aparece em “Burden”, a faixa de abertura: “… my best friend had a baby/ We twenty-five, I told that nigga, “Boy, you fuckin’ crazy”/ Maybe I’m the one who really need the Lord to save me”, Aminé reflete. O sample de “Thank You”, de Darondo (usado recentemente por Westside Gunn), foi utilizado aqui, em produção de Mac Wetha, com uma expertise que lembra os primeiros discos de Kanye West (uma influência perceptível em todo o repertório). Consigo imaginar nomes como Pusha T ou Freddie Gibbs em cima dessa batida, mas Aminé casou perfeitamente.

Além das mudanças na vida de pessoas ao redor do artista, outro fator que colaborou no avanço da maturidade foi a triste morte de Kobe Bryant, reverenciado em um skit protagonizado por Jak Knight, humorista e amigo próximo de Aminé. Outro acerto foi assumir esse chamado das responsabilidades da vida adulta sem se tornar um “velho chato”. Limbo é, sim, um projeto mais sério, mas diversas das melhores músicas do disco remontam à ousadia & alegria pela qual Aminé ficou conhecido. “Woodlawn” já pode ir para a playlist de “Só os Melhores Traps de Flautinha”. A dupla “Shimmy” e “Pressure in My Palms” é uma coleção de linhas destacáveis e a prova de que os melhores rappers ainda são os espertos. “You thought you made you an anthem, but you just sang you a Fergie” e “I got my groove back like Fela, not Stella” em menção ao filme A Nova Paixão de Stella (1998) mostram o amplo leque de referências de Aminé – que vai do pai do Afrobeat à cultura pop americana noventista em único verso. Na segunda, o bom-humor ganha a companhia do inglês slowthai e de Vince Staples, igualmente divertidos. A música é um dos destaques do disco e eu com certeza ouviria um trabalho colaborativo entre Aminé e o companheiro de West Coast. Não sei porque a parceria não havia acontecido antes.

Em “Can’t Decide”, Aminé fala pela primeira vez no disco sobre relacionamentos, mas a partir de um viés, digamos, mais sexual. “Love ain’t what I thought I would have found, baby/ Lost track of time, but I’ve made up my mind, baby” carrega a sinceridade de uma pessoa confusa com uma relação que não é só física, mas na qual ambos envolvidos não sabem se é amor. A produção orientada sob uma guitarra latina combina bem com o típico refrão cativante que o rapper domina tão bem, influência direta de Andre 3000 (citado no banger “Riri”). O gancho – com metáfora sexual – é perfeito para as pistas de dança (no momento, caseiras), e a ponte, bem marcada, e os versos de apenas oito linhas mostram que foi tudo intencional. É sempre bom ver um rapper (e artistas no geral) fazendo escolhas conscientes. “Compensating”, na sequência, é o lado B. Com mesma estrutura de composição, trata menos do lado físico e mais do aspecto emocional desse relacionamento que se embaralhou. O flow do primeiro verso de Aminé remete a “Heartless”, de Kanye West, e aqui ele entende que os problemas da relação foram responsabilidade das duas partes. “It’s hard to admit that I made my bed”, ele confessa no refrão, postando-se na vulnerável condição de quem errou e compreende as consequências.

O disco, recheado de músicas divertidas, sejam em investidas mais incisivas na rima ou nos grooves sobre relacionamentos, ainda tem a companhia do lado mais emocional de Aminé, capaz de fala de assuntos sérios sem perder a simpatia. Em “Mama”, homenagem à mãe, ele remaneja o sentido de “Song Cry”, de Jay Z, para fazer a música “chorar” frente à dificuldade de chorar literalmente; e faz a própria versão de “Dear Mama”, clássico de Tupac. “Becky” fala sobre as problemáticas do relacionamento dele enquanto preto com uma garota branca em Portland, uma das cidades com maior número de brancos nos Estados Unidos. “I say, “Let’s leave town,” but I feel like I’d get shot down/ And I’m tired, so this ain’t worth the risk”, Aminé sintetiza o sentimento de preferir desistir da relação do que encarar o cansaço que o racismo causa. Quando chega em “Fetus”, a gente já tá inundado de emoções e ainda ouve o Groogs (integrante do Injury Reserve que morreu em julho deste ano) rimando sobre paternidade. “I hope to be half of the father that my mama was”. Aminé e a dupla já haviam se juntado em “Campfire” e “Jailbreak The Tesla”

“My Reality” fecha o disco com a influência de Kanye West por toda a parte: o sample vocal orientado para o soul, a bateria semelhante a “Say You Will”, o auto-tune do segundo verso e as vozes adicionais de coral gospel. Aminé usa a influência com originalidade e ainda dá os próprios toques em uma canção que é o primeiro passo fora do limbo. Ele celebra o que é, provavelmente, o desejo de todo o artista: viver na realidade que um dia sonhou. No caso de Aminé, essa realidade é estar com os amigos e família (“You ain’t really on ‘til all your niggas on”), ver felicidade nas coisas simples (And now you’re just a nigga peelin’, like, eatin’ a grapefruit/ And you’re like, “This is nice”) e se estabelecer com a maturidade de quem veio para ficar – e ser mais do que o garoto que fez o hit do verão em 2016. Sem perder a pureza dessa juventude, ele tem conseguido.

(Limbo em uma faixa: “Pressure In My Palms”)

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ARTISTA: Aminé