Resenhas

Andy Stott – Never The Right Time

Produtor britânico constrói amálgama de referências e, sem se estabelecer em um único gênero, entrega sonoridade viva e instigante

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Ano: 2021
Selo: Modern Love
# Faixas: 9
Estilos: Ambient Music, Drone Music, Experimental
Duração: 40'
Produção: Andy Stott

Andy Stott é um mutante por excelência. Com uma obra que completa mais de 15 anos, o produtor britânico mostra em sua discografia uma necessidade de mudar de forma a cada registro. Em seus primeiros trabalhos, seu campo de expertise era o obscuro Techno, repleto de texturas úmidas e baterias enclausuradas que nos davam a impressão de estar em uma rave no limbo. Por volta de 2010, Andy encontrou na ausência de batidas constantes um novo caminho para experimentar sonoridades mais esparsas e envolventes. Nasce aí uma relação forte com a Ambient Music, mas que por conta de todo o seu passado com o Techno, veio entrecortada por percussões e glitches.

Andy tem permanecido nesse espaço desde então. Porém, o termo “permanecido” está longe de remeter a uma ideia de estagnação, pois a cada registro lançado fica claro que o produtor procura se movimentar por entre novos caminhos dentro deste universo sonoro criado. Há sempre uma particularidade a ser explorada, como se seus registros tivessem que tomar uma forma diferente a cada novo passo que Andy. A urgência de novos conteúdos faz o produtor mudar de forma constantemente.

Assim, em seu sétimo álbum, Never The Right Time, uma mudança era certa. A questão era: por onde Andy percorreria agora que já havia transitado por tantos gêneros, como Techno, Ambient, Glitch Music e Drone? A resposta veio por meio de um disco que reforça a característica mutante da obra do produtor, tornando-o um aspecto com vida própria. A ambiciosa ideia deste disco é justamente juntar todos os caminhos conhecidos por Andy em uma grande amálgama de referências. Não é um espaço segmentado em gêneros, mas uma obra que se apropria de elementos de diferentes universos para construir faixas que são mais de uma coisa na mesma coisa. Parece que a intenção de Andy é situar o ouvinte em uma posição que não o deixa descansar totalmente, pois a cada instante ele entra em contato com novas linguagens e formas que lhe dificultam a categorização. Ouvimos um reverb mais Ambient Music, ou um bumbo mais distorcido do Techno; mas o disco, por si só, não é nem um, nem outro. É nesse estranhamento que é construído todo o entendimento do disco.

De maneira sorrateira, “Away Not Gone” é a faixa responsável para abrir o registro e, assim, o faz a partir de texturas etéreas entrecortadas por interferências e edições abruptas, sinalizando que o ouvinte fique alerta durante toda a reprodução do álbum. A influência Techno vem forte em “Repetitive Strain”, puxando forte na fusão com a Ambient Music e conduzindo o ouvinte em uma vibe Aphex Twin. “Don’t Know How” é um dos momentos que conta com a colaboração de sua amiga de longa data Alison Skidmore nos vocais escondidos entre os ecos recorrentes e entrecortados pelas batidas frágeis. Há algo nostálgico em “The Beginning”, principalmente pelos timbres oscilantes fazem com que a atmosfera passe por um filtro de videocassete antigo e marcado pelo tempo. Por sua vez, “Answers” nos puxa de volta para o presente com uma presença intensa de percussões digitais, remetendo a uma espécie de trilha sonora de filmes futuristas feitos nos anos 1990, como O Quinto Elemento. Por fim, “Hard To Tell” quebra as linguagens eletrônicas, colocando uma faixa que se aventura pelo lado psicodélico e obscuro – como se tivessem saído de um poço profundo e ouvíssemos as melodias lá no fundo.

Por mais estranho e desconfortável que o disco soe nesta imprecisão de definições, ainda assim é extremamente convidativo para um ouvinte que nunca tenha entrado em contato com a obra de Andy Stott. Parte do talento do produtor está justamente na forma como ele consegue unir referências distintas de uma maneira harmônica. A todo instante, estranhamos que as faixas não são nem uma coisa, nem outra. Mas, em nenhum momento, esse deslocamento nos soa incômodo. Pelo contrário: é acolhedor e, ao mesmo tempo, instigante.

(Never The Right Time em uma faixa: “Repetitive Strain”)

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ARTISTA: Andy Stott

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.