Resenhas

Ane Brun – How Beauty Holds the Hand of Sorrow

Espécie de “Lado B” de disco lançado em outubro, novo projeto da norueguesa se baseia em Folk orgânico que une beleza e melancolia

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Ano: 2020
Selo: Balloon Ranger/Universal Music
# Faixas: 9
Estilos: Folk
Duração: 38'
Produção: Martin Hederos e Anton Sundell

Uma grande estrela no norte da Europa, mas relativamente desconhecida no Brasil, a norueguesa Ane Brun mostra o porquê de seu renome no belo How Beauty Holds the Hand of Sorrow – a já décima entrada em uma discografia iniciada em 2003. Reunindo sensibilidade, delicadeza e vulnerabilidade, a artista trabalha com maturidade seu conteúdo autoral, ainda que seus lançamentos que mais repercutem no streaming sejam os covers.

How Beauty… chega então como mais um argumento a favor de sua musicalidade, que ecoa a tradição de vozes femininas de raiz Folk não apenas estilisticamente. Isso porque, assim como Joni Mitchell e Vashti Bunyan (dois dos nomes que vêm à mente na audição do álbum), Ane promove uma poesia que mistura sentimentos dominadores, sobre os quais o eu-lírico raramente tem algum controle, que colocam à prova a paz da vida cotidiana. Ao invés de cantar os terrores que estão por vir, a maior parte das músicas narram o momento quando a tempestade acaba de passar e, por mais que o pior já tenha acontecido, ainda chove.

A voz da cantora é tão pesada quanto etérea – densa pela emoção, aérea por como se projeta por cima dos instrumentos com alguma esperança pelos próximos capítulos das histórias. São letras que falam sobre crescimentos pessoais em meio às adversidades (como “Closer” e seu refrão “This is how you grow”) ou mesmo após uma grande perda (“Last Breath”), na faixa que abre o disco e traz o verso que o batiza, reflete sobre a vida continuar após testemunhar o tal “último fôlego” de alguém).

São situações tão formativas nas narrativas pessoais de cada um quanto comuns à experiência humana nesse mundo. Como não poderia deixar de ser, o trato desses temas vem acompanhado de um aspecto orgânico que se reflete na escolha dos timbres acústicos e ambientação quase sempre minimalista nos arranjos. O álbum cresce devidamente na dobradinha “Trust” e “Gentle Wind of Gratitude”, momentos raros de instrumentação cheia no repertório, mas a imagem que ele projeta em nossa memória é a do vocal adornado apenas por violão ou piano, como na maioria das faixas.

Vale dizer que How Beauty… é uma espécie de Lado B a After the Great Storm, disco que Ane Brun lançou ainda em 2020, também ao lado da dupla Martin Hederos e Anton Sundell. Diferente deste, o primeiro álbum traz diversas experimentações Eletrônicas dentro de um terreno do Pop Contemporâneo. O novo é uma espécie de respiro em relação ao anterior com a estética com a qual a artista ficou conhecida, trazendo inclusive uma nova versão minimalista para “Don’t Run Outside”, hit de After the Storm, aos moldes dos covers de outros artistas que lhe renderam tanta fama na web.

O álbum termina com tanta beleza quanto melancolia, e essa última se estende pela ideia de que talvez a música autoral de Ane Brun nunca fale tão alto no público quanto os covers apontados como “mais escutados” em seu perfil nas plataformas de streaming. Fica a impressão de que ela transita entre dois públicos – um que a entende como intérprete e outro que quer ouvir o que ela tem a dizer – e a de que esta é uma obra que, independente (ou apesar) da sua qualidade, foi destinada a uma minoria.

(How Beauty Holds the Hand of Sorrow em uma faixa: “Meet You At the Delta”)

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ARTISTA: Ane Brun

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.