Resenhas

Angel Haze – Dirty Gold

Ano: 2013
Selo: Republic
# Faixas: 12
Estilos: Hip Hop
Duração: 56:03
Nota: 4.0
Produção: Markus Dravs

O vazamento abrupto de Dirty Gold, raivoso e cheio de rancor no final do ano passado nos passava uma imagem dúbia em relação à Angel Haze. Por que tanto estrelismo em um disco de estréia de uma rapper promissora? “So sorry Island/Republic Records, but fuck you” diria a cantora após entrar no escritório de seu produtor e colocar todo o seu material no Soundcloud. Aos poucos, vemos que o estrelismo na verdade é uma vontade imensa de mostrar um trabalho guardado e extremamente pessoal de Hip Hop. Com ares mainstream e uma produção do mais alto escalão, Markus Dravs, colaborador antigo do Coldplay, o trabalho transita entre outros gêneros como a música eletrônica e o Pop antes de tangenciar as rimas – muito bem feitas e maduras da rapper.

Aliás maturidade e conteúdo lírico expressam o sentido por trás do poder deste disco. Ao escolher um lado mais amplo da música e fugir um pouco da descaracterização de trabalhos iniciais, a cantora poderia muito bem se ver em um beco sem saída: criar uma música de fácil compreensão, ou seja, ampla e ao mesmo tempo se resumir à letras inofensivas. No entanto, a cada faixa, vemos que a autoridade e pessoalidade correm soltas, lado a lado, e expressam o que Angel sente e pensa.

Faixas como a abertura Sing About Me, trazem diálogos como interlúdios a respeito da vida e devaneios da rapper. “A música te aprisiona” diz antes de se ver no meio de rimas rápidas, batidas eletrônicas e um refrão extremamente Pop. O poder de sua voz e sua amplitude a fazem abrir possibilidades distintas. A excelente Black Synagogue a coloca no papel de uma pastora, falando sobre a escuridão e como tentamos fugir dela. A sinceridade e ao mesmo teatralidade inicial é a introdução para uma das melhores batidas e climas vistos aqui. O refrão em falsete feito por Angel é viciante e surpreendente.

Temas distintos como um relacionamento conturbado com sua mãe em Black Dahlia ou suicídio em Angels & Airwaves demonstram que apesar dos ganchos populares que a música de Haze faz não a coloca em um patamar genérico. Aliás, seguindo os passos de outro rapper que não costuma guardar temas ou sentimentos para si como Eminem, Angel fez uma versão pessoal para Cleaning Out My Closet do músico. Falando sobre abuso sexual, a faixa é tensa e serviu como degustação do que poderíamos escutar em Dirty Gold.

Algumas músicas são cativantes e prontas para as pistas. White LilliesWhite Lies nos fazem questionar se o lançamento abrupto e consequente debandada de sua gravadora não podem levar a pérolas como essa se perderem por aí. A faixa título é outra balada, extremamente Pop e que com certeza pode se tornar um sucesso. Quando retomamos a questão inicial do porquê Angel se revoltou com um nova postergação de seu disco, nos deparamos com A Tribal Called Red.

A música possui as mesmas introduções escutadas em outras faixas, no entanto o diálogo se resume ao questionamento em relação as origens da cantora e porque tais aspectos não poderiam ser tão vistos assim – Angel não fala sobre sua cidade, bairro, por exemplo, algo usual no Hip Hop. A resposta? Ela não precisa disso, sua expressão vem da música,tudo que poderia dizer está em sua música. Posteiromente escutamos o melhor do disco e entendemos a ansiedade para que a rapper pudesse dizer o que sentia. Ao mesmo tempo, temos ciência que Haze sabia da capacidade por trás de Dirty Gold, um disco feito em um gênero dominado por homens mas que tem em uma voz feminina a capacidade de alcançar um público grande através de ótimas batida e por que não, letras pessoais?

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BOM PARA QUEM OUVE: Karol Conká, Kendrick Lamar, M.I.A.
ARTISTA: Angel Haze
MARCADORES: Hip Hop, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.