É com um arrebatamento lírico que Anna Tivel chega com Animal Poem, mais uma entrada em sua extensa discografia que se situa no caminho entre o folk e o country. Aqui, a cantautora americana natural de Portland, divagando sobre a vida e tocando violão, distribui suas observações, ora amarguradas, ora cheias de esperança, sobre o proverbial tempo em que vivemos.
O álbum possui uma sonoridade muito cristalina e artesanal, de uma materialidade muito palpável, com violões, vozes e baterias coladas uns nos outros. De acordo com a artista, Animal Poem foi “gravado ao vivo em círculo com alguns dos meus amigos mais queridos”, como numa roda de conversa. É possível deduzir uma daquelas gravações feitas com todos juntos na sala, sem a separação de paredes e fones de ouvido. Para ela, o álbum possui uma “bagunça vital” comovente – notas fantasmas no registro agudo do piano, linhas melódicas de guitarra e baixo brevemente entrelaçadas, um cachorro latindo ao fundo.
As letras são todas extensas e possuem uma poesia que remete a uma mente angustiada, sempre em observação crítica da vida. A abertura, “Holy Equation”, fala sobre as cidades, os vizinhos, os imigrantes, e faz pensar no cenário político reacionário atual, sem nunca o citar diretamente. Seja nessa ou nas outras faixas seguintes, Tivel fala dos problemas sem nomeá-los, apenas registra sintomas de mudanças incômodas que vão se instaurando aos poucos em nossas vidas.
De acordo com a compositora, as músicas foram escritas em longas viagens de carro pelo país, em aviões, em caminhadas pelo bairro, em noites passadas deitada no telhado e, enfim, em momentos de contemplação. “Consigo me sentir buscando nessas músicas o que quer que esteja além do meu alcance”, ela escreve. “Mortalidade e conexão. Sofrimento e significado. As pessoas conduzem as narrativas, entram em órbita, giram novamente – uma mãe exausta na saída de uma rodovia, um vizinho idoso cercado por uma pilha crescente de jornais, os heróis anônimos de uma revolta no Centro-Oeste, dois amantes olhando para o céu”.
As interpretações de Tivel são melódicas e cheias de sentimento – do começo do álbum, quando ela aperta a voz ao dizer “it gets hard” em “Paradise”, até o encerramento, quando ouvimos uma gravação de uma voz masculina dizendo: “oi amor, estou no hotel, sentado aqui e pensando em você” em “Humming”, uma sensação de verdade e honestidade trespassa as composições.
Em Animal Poem, entre melodias, instrumentações refinadas e um batimento cardíaco muito próprio, Anna Tivel escreve seu poema como se fosse um animal paralisado diante do perigo, com a vida inteira lhe correndo pela memória. Lindo de ouvir.
(Animal Poem em uma faixa: “Paradise”)
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