Tether, acima de tudo, conta uma história sobre persistência – a cantora californiana Annahstasia finalmente lançou seu debut depois de quase uma década tentando viabilizar a obra. Entre trabalhos como modelo e dentro das artes visuais, a artista foi encontrando não só sua voz, mas também seu espaço numa indústria que demanda certas abordagens musicais de certos corpos. Depois de anos sendo forçada numa estética R&B, foi no folk que ela encontrou as bases para o que se tornaria seu primeiro registro – passando ainda por dois EPs (Revival e Surface Tension, de 2023 e 2024, respectivamente) que serviram para reafirmar o potencial de sua música.
O disco tem um tom intimista construído peça a peça pela musicista. Cada instrumento, cada timbre, cada espaço para o silêncio nos conta algo sobre suas intenções criativas. A base instrumental, apesar de parecer quase minimalista, esconde em sua simplicidade uma riqueza de detalhes e de pequenas surpresas que se desvelam ao ouvinte a cada nova audição. “Unrest” é exemplo disso, apresentando uma riqueza de elementos de sopro e cordas numa mixagem que parece aninhá-los confortavelmente num lugar que conduz o ouvinte sem distraí-lo do mais importante: o vocal de Annahstasia.
A voz (e a poesia) da cantora são o ponto alto do registro. Dona de uma voz que é ao mesmo tempo poderosa e que consegue demonstrar fragilidade, Annahstasia coloca em sua entrega vocal algo único: o silêncio. Por vezes, ela flexiona suas sílabas de forma a deixar espaços ou cria respiros maiores entre uma palavra e outra (o que já pode ser percebido na abertura “Be Kind”), resultando numa entrega e numa entonação que se ligam às histórias que nos são contadas em cada canção. Soma-se a isso as ótimas participações de nomes como Obongjayar (no belo dueto “Slow”) e da poetisa aja monet (em “All Is. Will Be. As It Was”).
São letras confessionais, que discutem amor, decepção, esperança e memória, entoadas num tom bastante pessoal e sensível. Tether é um disco encantador, que, em meio à sua aparente simplicidade, revela uma miríade de sentimentos e sensações. Há, a todo momento, uma dualidade entre força e delicadeza, sutileza e profundidade. Um dos grandes lançamentos do ano.
(Tether em uma faixa: “Villain”)
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