Resenhas

Anomalie – Galerie

Em uma levada Bedroom Jazz, disco de estreia do produtor canadense apresenta referências virtuosas sob roupagem acessível e intimista

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Ano: 2022
Selo: Nettwerke Music Group
# Faixas: 10
Estilos: Bedroom Jazz, Trip Hop, R&B
Duração: 30'
Produção: Anomalie

Quanto mais nos aprofundamos bedroom pop, mais descobrimos como ele possui diferentes particularidades que rendem debates interessantes sobre a cultura de música. Para além do estereótipo do lo-fi hip hop e dos rappers de Soundcloud, é curioso como um gênero totalmente concentrado e comandado por uma única pessoa evoca aquele sentimento DIY (do-it-yourself) que o punk e o indie rock instauraram a partir da década de 1970. Não apenas no que diz respeito à divulgação e marketing de artistas, mas também à facilidade da produção e composição de discos, diretamente relacionada ao avanço e relativo aumento de acesso à tecnologia musical. Outro possível tópico de discussão dentro deste gênero diz respeito ao termo “Pop” e o quanto as limitações de um ambiente supostamente amador definem uma sonoridade que é esapalhada globalmente.

Entretanto, ao nos voltarmos para o termo “Bedroom” surge, quase que inevitavelmente, a questão: seria possível aplicar essa característica intimista a outros gêneros que não o Pop? Este gênero só existe porque o pop admite certos minimalismos melódicos ou seria possível replicar o espírito DIY para gêneros de complexidade musical, digamos, mais elevada? O produtor canadense Nicolas Dupuis é uma das pessoas capazes de responder isso com categoria.

Nicolas Dupuis é o nome Á frente de Anomalie, projeto que traz para o campo do “Bedroom” influências menos Pop. Sua formação musical como pianista e produtor de Jazz o levou a se aventurar pelo mundo dos acordes complexos e rItmos compostos. Seus primeiros EPs (Métropole I e II) deixaram claro que é no virtuosismo das teclas pretas e brancas que Nicolas se sente mais confortável para entregar suas músicas. Entretanto, não se trata de um jazz purista. Anomalie traz uma sonoridade pavimentada sobre o jazz, mas que cresce junto do hip hop e R&B. Assim, batidas eletrônicas e timbres digitais se unem àquela complexidade, como uma espécie de democratização do Jazz –  algo que era feito de uma forma mais tímida nos beats de lo-fi Hip Hop. que se apropriavam de samples de discos clássicos do gênero. O resultado é uma sonoridade bastante autêntica, a qual pudemos tatear aos poucos ao longo dos últimos anos por meio de singles e EPs soltos. Agora, a semente inicial plantada por Nicolas ganha seu primeiro respiro de vida, na medida em que ele abre seu mundo para o ouvinte e compõe uma trilha sonora que é tão envolvente quando instigante. Estamos falando do disco de estreia, Galerie.

O nome do registro vai de encontro à impressão que temos ao ouvi-lo. Trata-se de uma galeria em que estão expostas diferentes recortes de Nicolas. Transitando entre as diferentes faixas, essa galeria deixa muito clara as referências musicais que direcionam o projeto. Diferente dos EPs, Galerie dá um tempo maior para o ouvinte mergulhar na complexidade das músicas. É como se estivéssemos em um museu, e o tempo de apreciação das obras não pode (nem deveria) ser apressado – deve-se experienciar Galerie sem qualquer urgência.

Unindo-se ao guitarrista brasileiro Mateus Asato, Nicolas escolhe como primeiro quadro de sua galeria a psicodélica “Lune”, que cedo já imprime uma batida marcante, repleta de groove e que abre o caminho para que um pontual solo de piano se instaure – ideal para derreter nossa cara. “Bond” traz uma ambientação de soft jazz, compondo o clima lounge do disco. Mas quase na metade da produção, ela descarta o tom suave para nos arrebatar com uma batida suingada de R&B. “Hummingbird” muda o foco para os arranjos de cordas que estão lá não como um acessório para embelezar, mas como complemento indispensável a esta amálgama. Não é apenas na construção de batidas que Anomalie se destaca, mas também na forma como conduz a emoção do ouvinte sem ao menos precisar de bumbos e caixas para se organizar no compasso da música – para ilustrar e experimentar isto, ouça a última faixa do disco, “Leiria”.

Anomalie é como um projeto de “Bedroom Jazz”: inserido na formalidade jazzística, mas entregando ao ouvinte uma experiência intimista – e que nos coloca nessa, como o título anuncia, galeria. Seja na escolha dos timbres ou na percepção geral dos arranjos, Galerie é um disco acolhedor, digno do sufixo “Bedroom”. Adentramos a intimidade de Nicolas Dupuis e ele não sacrifica sua linguagem virtuosa para ser mais ou menos acessível, basta apenas sentir a honestidade de suas composições.

(Galerie em uma faixa: “Hummingbird”)

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ARTISTA: Anomalie

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.