Resenhas

Another Sky – I Slept On The Floor

Grupo londrino navega pelas áreas cinzentas que dividem gêneros musicais e, em disco de estreia, constrói viagem emocionante e catártica

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Ano: 2020
Selo: Fiction Records
# Faixas: 12
Estilos: Post-Rock, Ambient Music
Duração: 44'
Produção: Another Sky

Apesar de sistematicamente útil, dividir as diversas expressões musicais em gêneros tem cada vez encontrado mais obstáculos. Em um determinado momento do passado, era comum conseguir pontuar com exatidão em qual rótulo (ou rótulo-dentro-do-rótulo) determinada banda se encaixava – especialmente no Metal, em que as variações de estilo ganhavam nomes cada vez mais compostos e complexos. No entanto, novos artistas encontram mais sentido para suas criações em espaços entre os gêneros, emprestando diferentes elementos de cada um, sem se comprometer exclusivamente com nenhum deles. Surgem sonoridades impossíveis de categorizar com exatidão.

O grupo inglês Another Sky é um desses exemplos e se movimenta sorrateiramente pelas áreas cinzentas. Aliás, “sorrateiro” parece ser um termo preciso para definir a história da banda, que desde 2017 realiza pequenos shows pelo seu país natal, conquistando terreno e popularidade aos poucos até desembocar em uma performance inesquecível, há dois anos, no programa de Jools Holland. Com a apresentação da canção “Chiller”, parte da crítica ficou intrigada com a impossibilidade de categorizar o profundo e tocante som dos britânicos. Parecia permear o campo do Folk, mas havia certamente um lado etéreo do Post-Rock. A batida acelerada nos agita, ao mesmo tempo que a sutiliza melódica nos deixa atônitos. E os vocais de Catrin Vincent ainda potencializam discussões sobre uma característica andrógina.

Em meio a este mistério, Another Sky resolveu colocar no mundo o seu primeiro disco de estúdio, intitulado I Slept On The Floor, que embaralha ainda mais as convenções. A construção das 12 faixas do disco não tem a intenção de tornar as descrições mais claras ou delimitadas, mas, sim, de provocar e nos emocionar. Temos apenas indícios de onde Another Sky toca. Um pouco do Post-Rock, Ambient, Pop Rock, Folk – tudo misturado. E se todos esses gêneros vêm à tona ao escutarmos o registro, não é por falta de coesão ou “conceito” sólido, é porque todos eles são necessários para entregar uma mensagem extremamente emocionante. Este é o grande diferencial do grupo: a entrega de um produto que nos toca intimamente pela ausência de termos precisos de definição.

Essa imprecisão é capaz de evocar sentimentos que igualmente não se comportam nas palavras. Cada faixa possui uma abordagem diferente e, se não fossem os grandiosos vocais de Catrin, poderíamos facilmente dizer que se tratam de composições de artistas distintos. Às vezes, escutamos faixas mais introspectivas e melancólicas com vocais quebradiços, até que, de repente, estamos em um ápice emocional, no qual se sente no rosto grandes paredes sonoras.

Apesar disso, o disco começa lento como nos primeiros estágios de uma montanha-russa, com a densa “How Long?”, que cessa a textura difusa para dar lugar a um piano à la London Grammar guiando a voz frágil de Catrin. O single “Fell In Love With The City”, por outro lado, é catártico, libertador – urgente em tempos de isolamento social. “The Cracks” conserva um aspecto meio progressivo nas linhas difusas de guitarras e uma bateria errática que exige algum esforço do ouvinte. “Tree” traz um crescimento constante: uma balada de guitarra e voz que cede espaço a elementos maiores até proporcionar uma grande explosão. “All Ends” é o momento de maior introspecção do disco, com texturas ecoantes e etéreas chegando apenas para criar um momento suspenso no tempo, nos isolando de nós mesmos. “Only Rain” é o fim do repertório, mas não parece encerrar a jornada propriamente, sob tons abertos e contínuos típicos de Alt-J – nada mais apropriado para Another Sky, que rejeita a definição completa e sempre deixa um espaço sobrando para interpretações.

I Slept On The Floor oficializa um início que certamente deixa sua marca. É um disco que pede uma audição livre de decretos: entraremos em contato com tantas propostas, sonoridades e referências, que não há repertório suficiente de palavras para dar conta do escutado – e vivido. Nem mesmo o termo “montanha-russa de emoções” é capaz de abarcar a real intensidade do álbum, já que não parece haver engenharia mirabolante o bastante para construir um brinquedo tão extremo quanto a estreia de Another Sky.

(I Slept On The Floor em uma faixa: “Fell In Love With The City”)

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ARTISTA: Another Sky

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.