Resenhas

Arca – KiCk i

Quarto disco autoral de Alejandra Ghersi traz uma habilidosa manipulação de timbres e texturas e ressalta a potência metafórica de sua obra

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Ano: 2020
Selo: XL Recordings
# Faixas: 12
Estilos: Experimental, Glitch Pop, Deconstructed Club
Duração: 38'
Produção: Arca

“Você se lembra da primeira vez que morreu?”. Constantemente levantada nas performances artísticas da produtora e compositora Alejandra Ghersi (conhecida pela alcunha de Arca), a ideia de morte e renascimento tem papel fundamental dentro de sua extensa e rica obra. Ao longo da carreira, a artista teve a chance de desenvolver a filosofia e a sonoridade alquimista em colaborações para faixas de Frank Ocean, Björk, Kanye West e FKA Twigs. Mas é em seu trabalho autoral que a verdadeira face das experimentações com o divino/transcendental toma uma forma clara. Pouco definível, mas extremamente cativante e provocadora. Um híbrido autêntico entre experimentação e polidez.

O experimentalismo perpassa toda a obra de Arca. Sua sonoridade já percorreu caminhos mais etéreos e Ambient (Xen, 2014), já desbravou a desconstrução feroz da Glitch Music (Mutant, 2015) e até mesmo flertou com os lamentos do canto lírico em espanhol (Arca, 2017). Entretanto, os discos são apenas um campo da extensão criativa que a artista usa para desbravar os cantos obscuros e inexplorados do experimentalismo. Em 2019, o teatro The Shed abriu as portas para que Arca pudesse levar sua arte a novos níveis, realizando uma série de performances artísticas sob o nome de Mutant;Faith. A matéria-prima de Arca tem a ver com se permitir morrer e renascer quantas vezes forem necessárias – ousadia e audácia que beiram os limites da metafísica. Não é apenas mudança de sonoridades e propostas artísticas. É uma mudança de corpo, sentida em cada pedaço dela.

Sucedendo o arrebatador single de 62 minutos “@@@@”, Arca entrega uma nova pele para podermos dissecar e explorar. Esta é a sensação que KiCk i nos causa durante os primeiros segundos, recortando agressivamente os diferentes timbres e sons únicos que apenas Alejandra é capaz de produzir. Em seu título, a artista já deixa clara essa sensação de exploração das entranhas, mas também demonstra que tem total propriedade sobre seu corpo e identidade.  Ela afirma que o kick (chute) é uma menção ao chute do ser pré-natal – primeira instância de individualização e o momento em que os pais tomam consciência de que não tem controle algum sobre aquela criança. E as primeiras palavras de Alejandra no disco confirmam que nossa audição do disco não traz (e nem trará) a possibilidade de controlar sua música: “I do what I wanna do it, when I wanna do it”.

Assim, KiCk i vai progredindo com a violência e autenticidade desse chute primordial. “Non Binary” abre o registro com aquelas palavras diretas e que nos acertam em cheio – Arca chegou, preparem-se. “Mequetrefe” navega por alguns gêneros musicais latinos com percussões afiadas e um flow de afronta enérgico, que deixa pouco espaço para discussão. Björk colabora no disco durante a faixa “Afterwards”, um retorno à era Xen, intensamente marcada pelo etéreo da Ambient Music, mas sem abrir mão das interferências glitch. “KLK”, parceria com Rosalía, traz a versão autoral e retrabalhada do Reggaeton típico, abusando de distorções e do autotune robótico – que ganha forma na surreal capa do disco. “La Chíqui, por sua vez, abre mão de qualquer estrutura Pop típica, dando espaço para a catárse total com contribuições de SOPHIE, sua parceira artística de longa data. Por fim, “No Queda Nada” traz toda a emoção do canto melódico de Alejandra, um que nos conforta depois de uma experiência sonora tão drástica e urgente.

KiCk i é mais do que um novo capítulo na intensa obra de Arca. É manifesto de existência e vida própria, que, a cada audição, abarca novos significados e novos universos dentro da própria Alejandra. Ela continua brincando com a vida e morte, de forma habilidosa, tal qual uma deusa que renasce a cada nova era. Como apontado pelo site i-D, é a Vênus de Boticcelli que nós merecemos em 2020.

(KiCk i em uma faixa: “Non Binary”)

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ARTISTA: Arca

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.