Resenhas

Arcade Fire – Reflektor

Banda entrega disco com bons pontos altos, mas inferior aos seus anteriores

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Ano: 2013
Selo: Universal Music
# Faixas: 13
Estilos: Indie, Indie Rock, Disco
Duração: 1h15
Nota: 4.0
Produção: James Murphy
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Freflektor%2Fid696702

Logo que ouvi Reflektor inteiro pela primeira vez, na semana passada, tive uma impressão que permaneceu intacta ao longo dos últimos dias: Quando Arcade Fire faz seu trabalho menos surpreendente, ele ainda é superior à grande maioria das coisas que ouvimos por aí.

Não sei você, mas eu me impressionei de primeira com o single que batiza a obra. Não pela mão de James Murphy (produtor do disco), a participação de David Bowie ou os sete minutos de duração, mas pela quantidade de significado que a faixa carrega. E, assim como a banda fez no anterior The Suburbs, uma música de abertura que carrega o nome do álbum é a grande responsável por sua identidade. Na hora que ouvi o hit – um dos melhores do ano, certamente – já meio que “saquei” qual era a proposta da vez. E a primeira decepção (foram duas, explicarei depois) foi a constatação imediata que nenhuma das outras era tão boa quanto ela.

Mas já que toquei no assunto, preciso te contar a melhor característica do álbum. Continuando o que Arcade Fire vem fazendo na última década, Reflektor é uma obra de muita identidade. Minha impressão é que, assim que alguém toca uma faixa da banda, é muito fácil lembrar de qual álbum ela veio. Isso tanto na questão temática, quanto na sonoridade.

Sobre os temas, o disco gira em torno da decepção e a consequente perda da fé, com uma grande dose de existencialismo e cheio de questionamentos. Isso vem das experiências de Win e Regina no Haiti, além de ser algo que se encaixa bem nos temas que a banda já trabalhou em sua discografia, parecendo uma sequência natural principalmente de Neon Bible – álbum com o qual, inclusive, este mais se parece sonoramente (se você quer compará-lo a algum dos outros três).

No meio disso, surge a figura de Orfeu, que serviu de inspiração para algumas das letras (com referências explícitas na sequência Awful Sound (Oh Eurydice) e It’s Never Over (Oh Orpheus)) e teve o filme Orfeu Negro como ilustração para as letras do álbum em seu lançamento. O mito do homem que desce ao inferno para resgatar sua amada se encaixou no desespero existencial que percorre o repertório de Reflektor (alguém disposto a lutar até o fim pela única coisa que lhe dava sentido à vida), assim como o carnaval carioca da produção cinematográfica encontra seu correspondente nas influências Disco como a válvula de escape para essa condição, a histeria de festejar na tentativa do vazio ser preenchido.

Na musicalidade, o destaque fica pra como as estruturas das faixas se repetem dentro delas mesmas, a maioria com mais de 5 minutos de duração, como verdadeiros mantras melódicos para entrarmos no clima espiritual que as músicas propõem ter. A banda abusa também dos versos fáceis e marcantes, principalmente nos refrões, e de fácil identificação, seja em frases curtas como “We exist” (na faixa de mesmo nome) e “I don’t wanna know” (em Normal Person) ou nas rimas simples “Can we work it out/if we scream and shout” (de Afterlife).

Com características assim, dá pra ver que é um disco feito para conquistar sua empatia. Tanto é que você reconhecer pedacinhos de diversas outras músicas ao longo do disco – e o maior destaque fica para a mais que clássica Billie Jean de Michael Jackson em We Exist. Daí é quando a gente olha pra tudo isso que se dá conta (e aí vem a segunda decepção) que essas músicas não são tão boas quanto outras que o grupo já lançou antes.

Como eu disse, não foi desta vez que Arcade Fire fez algo ruim. Reflektor é bom, apenas está longe de ser o ponto alto da carreira da banda. Mesmo com alguns pontos altos (como a faixa-título, os riffs de Normal Person, as linhas de baixo de Joan of Arc ou a batucada na primeira Here Comes the Night Time. Porém, com tantas músicas menos impressionantes, fica a sensação de algo mais morno do que o esperado. Até mesmo quando pensamos em algumas das letras, como questionamentos sobre o que é “ser normal” ou críticas a grandes pregadores em redes de televisão – algo que, sinceramente, já estamos cansados de ver.

Pelo menos, fica a certeza que a banda sabe continuar criando obras com grande coesão entre suas faixas, e é provável que o trabalho de Murphy, mais do que apontar um novo caminho musical, tenha sido o de ajudar os músicos a encontrar melhor a identidade do álbum. Arrisco dizer que em três anos, que é o tempo que o grupo leva para lançar um disco, o pêndulo mudará de lado e virá algo mais pessoal e íntimo, mais Funeral ou The Suburbs, que é o que Arcade Fire já provou ser seu ponto forte.

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BOM PARA QUEM OUVE: David Bowie, Beck, Bowerbirds
ARTISTA: Arcade Fire
MARCADORES: Disco, Indie, Indie Rock, Ouça

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.