Resenhas

Aretha Franklin – Aretha Now

Em seu segundo LP pela Atlantic Records, Aretha costura hits de diferentes gêneros da época com sua voz em máxima potência

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Ano: 1968
Selo: Atlantic Records
# Faixas: 10
Estilos: Soul, Blues, R&B
Duração: 29'
Produção: Jerry Wexler

São poucos os momentos em Aretha Now em que a voz da Rainha do Soul não está sendo usada em sua máxima potência. É, provavelmente, por esta razão que o disco costuma ser a porta de entrada da obra da lendária cantora norte-americana. Aliado ao fator diafragmático está a seleção vigorosa de hits que compõem o registro. A maioria das faixas, é claro, já tinham sido lançadas como single antes de serem reunidas no LP e, nestas condições, alçaram voos meteóricos até o topo das paradas. A combinação de todas elas aqui transforma o disco de 1968 em uma explosão que, de tão enérgica, é quase cansativa. Aretha Franklin não para.

“Think” é a música que já abre o disco com o pé na porta. Sobre um piano frenético, a cantora lança indiretas para seu então marido Ted White que, inclusive, assina a autoria da canção junto dela. “É melhor você pensar na maneira como você está me tratando”, ameaça em notas estridentes e rápidas que depois desembocam no crescendo de “Freedom… Freedom… Freedom!” com a ajuda de um backing vocal poderoso. Em “You Send Me”, composição de Sam Cooke (um dos primeiros artistas a misturar música Pop com o Gospel), os cantores auxiliares também são cruciais para o brilho da faixa. Seu momento mais efusivo chega a namorar o que se tornaria o Rock’n’Roll futuramente e esse efeito só se concretiza pela multiplicidade de vozes na faixa.

Outro momento de brilhantismo está, evidentemente, em “I Say a Little Prayer”, provavelmente uma das músicas cantadas por Franklin de maior sucesso através da história. A versão original, na verdade, composta por Burt Bacharach e Hal David, foi criada especialmente para Dionne Warwick. Apesar de ser interpretada com maestria pela cantora, Bacharach se arrependeu do tempo que escolheu para a canção em 1967. “Eu errei, ficou muito rápida. Quando refizemos com Aretha ficou muito melhor”, confessou ao jornal LA Times.

Aretha Now ganha pontos, também, ao permitir que a cantora descarregue seu background Gospel nos gêneros mais em voga na época. “See Saw”, de Don Covay, é mais uma das músicas com influência do Rock, por exemplo. “Night Time Is the Right Time” é um Blues dos anos 1930 (de Roosevelt Syker, a.k.a. “The Honeydripper”) que já tinha sido reinterpretado por Ray Charles e por Nappy Brown na década de 1950, mas que ganha novos ares com a leitura de Franklin aqui. Além dessas, outras baladas românticas (mais convencionais) também aparecem: é o caso de “Hello Sunshine”. Aliás, destaque para o trabalho por vezes esquecido de Ronnie Shannon, uma das poucas mulheres compositoras na época. Neste disco, ela assina as faixas “You’re a Sweet Sweet Man” e a última “I Can’t See Myself Leaving You”.

Por fim, o LP mantém o impulso feminista do primeiro lançamento de Franklin na Atlantic Records (I Never Loved a Man The Way I Loved You, 1967). Em várias canções compostas por homens, a cantora se coloca na primeira pessoa da letra e, de repente, o que era uma faixa a respeito da liberdade sexual masculina se torna um manifesto de uma mulher empoderada. A estratégia de “Respect” se repete aqui em “I Take What I Want”: “Eu estou pronta para te conquistar agora / Eu vou fazer de você, meu homem”, canta invertendo o jogo de caça-caçador. Isso posto, vale a pena retomar o nome do disco que, em tradução livre para o português, significa “Aretha Agora”. O discurso, a voz, a mensagem, a música e a emoção reunida neste álbum, em certa medida, são bem-vindos em qualquer “agora” que você escolher a partir de seu lançamento.

(Aretha Now em uma música: “I Say a Little Prayer”)

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MARCADORES: Blues, R&B, Soul

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