Resenhas

Aretha Franklin – I Never Loved a Man the Way I Love You

O disco remonta quase todas as fases de uma tragédia romântica em uma espécie de storytelling Blues cantado pela maior voz do Soul

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Ano: 1967
Selo: Atlantic Records
# Faixas: 11
Estilos: Soul, Blues, R&B
Duração: 32'
Produção: Jerry Wexler

A versão de Aretha Franklin para “Respect”, canção de Otis Redding, já cravou o seu espaço na história da música como um hino feminista para todas as gerações que vieram depois de seu lançamento. Em uma releitura de ritmo frenético e vozes a todo vapor, a cantora inverte papéis: se Redding queria respeito de sua mulher quando ele chegasse em casa do trabalho, Franklin não aceita nada menos do que um respeito recíproco. A tragédia de I Never Loved a Man the Way I Love You, primeiro disco da rainha do Soul para a Atlantic Records é que, em um mundo machista e misógino, a mulher que pede respeito, ganha em troca solidão. E é sobre esse conflito inadequado que a artista disserta neste disco que parece atravessar liricamente todas as fases do luto.

Em “Soul Serenade” e em “Baby, Baby, Baby”, ela parece estar em negação: relembra o homem amado e os momentos felizes que passaram juntos. Em “Don’t Let Me Lose This Dream”, uma espécie de Bossa Nova ácida na voz da cantora, ela parece querer barganhar uma volta a esse passado. Em “Good Times”, em um momento mais R&B do que a média Blues deste registro, Franklin entra em um momento “vou me jogar na pista”. Em “Save Me”, ela parece estar minimamente pronta para se entregar a um novo amor, ao enxergar nessa configuração uma possibilidade de escapar do fundo do poço. Em “Do Right Woman, Do Right Man”, ela reassegura seu empoderamento: antes só do que desrespeitada. “Uma mulher é só um ser humano, você precisa entender”, canta. “Ela não é um brinquedo, ela é de carne e osso, tal qual um homem”.

Depois de toda essa trajetória, a conclusão não poderia ser mais bela (e cruel, ao mesmo tempo): a última canção do disco é a versão deslumbrante de “A Change Is Gonna Come”, de Sam Cooke. O ouvinte que atravessou todas as faixas até aqui tem plena consciência de que o eu-lírico do LP está em frangalhos e já tentou de tudo para sair dessa situação. Mas, falhou. Assim, a solução é esperar: “Tem sido um caminho muito longo até aqui. É a subida de uma montanha, todo esse caminho. Mas, eu sei que a minha mudança está chegando”, anseia.

I Never Loved a Man the Way I Love You é a comédia romântica que deu errado. A versão real dos amores incompreendidos sem final feliz. Um resumo musical do que é passar por um término que, para além da frustração do “não” do outro, ainda penetra pelo peito em um demorado processo que só o tempo é capaz de resolver. O assunto sozinho já é duro, mas na voz de Aretha Franklin em um disco honesto e que namora muito com o Blues para fazer as palavras aqui cantadas ressoarem, o tópico se torna brutal. Musicalmente, são fórmulas fáceis de ouvir, sem grandes invencionices. No entanto, qualquer um que se permitir ser arrebatado pelos conteúdos ali expostos, sairá transformado desta audição.

(I Never Loved a Man the Way I Love You em uma música: “A Change Is Gonna Come”)

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MARCADORES: Blues, R&B, Soul

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