Resenhas

Aretha Franklin – Spirit In The Dark

Apesar do “fracasso comercial” que teve na época, o disco é o mais confessional registro da cantora e um destaque de sua fase setentista

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Ano: 1970
Selo: Atlantic Records
# Faixas: 12
Estilos: Soul, R&B, Gospel
Duração: 40'
Produção: Tom Dowd, Arif Mardin, Jerry Wexler

Aretha Franklin entrou nos anos 1970 em meio a turbulências internas e externas: ela havia acabado de se separar do abusivo marido e empresário Ted White, e a população negra dos Estados Unidos ainda colhiam os cacos do assassinato de Martin Luther King em 1968. Spirit In The Dark, disco primoroso e subestimado, traduz o momento pessoal pelo qual passava a Rainha do Soul e ainda encarna o espírito que se seguiu após o ápice do movimento dos direitos civis do fim da década anterior. 

Mas, como não poderia deixar ser tratando-se de Aretha Franklin, todas as aflições e incertezas vêm acompanhadas de uma musicalidade explosiva, timbres de vozes fantasmagoricamente precisos e, especialmente nesse disco, o talento – às vezes elipsado por sua voz durante a carreira – no piano. E, além disso, mostra a competência para aglutinar influências que vão do Gospel tradicional ao R&B, passando por pequenas extravagâncias típicas do Rock Clássico que começava a caracterizar os anos 1970. 

“Don’t Play That Song”, faixa de abertura e um dos êxitos comerciais do álbum, já na entrada traz Aretha nas teclas e cantando sobre dores que teimam em nos deixar. Na sequência, a versão de “The Thrill Is Gone”, clássico eternizado BB King, também chega acompanhada do mesmo piano e um coral cantando “thank God almighty, I’m free at last”, em provável referência à libertação das garras de Ted White. 

O árduo caminho à redenção ganha tons mais festivos em “Pullin’”, composta em parceria com sua irmã Carolyn, que traz coros constantes repetindo “pullin’”, higher”, “harder” em ritmo cada vez mais frenético – típicos das deixas finais em produções do Gospel. A linha entre o Gospel e o R&B se torna ainda mais porosa na lindíssima “You And Me”, que pode ser tanto uma canção de amor quando uma louvação a Deus. Mais uma vez com o piano de Aretha brilhando. Não é exagero dizer que Spirit In The Dark é o disco mais “pianístico” da Rainha do Soul, com mais da metade do repertório guiado por seu talento nas teclas, como na 100% Blues “Honest I Do”, releitura da composição assinada pelo lendário bluesman Jimmy Reed.

Quase 50 anos depois, o grande clássico indiscutível do disco é justamente a faixa-título. Chegando ao 3º lugar da parada de R&B da Billboard e ao 23º no disputado Hot 100, “Spirit In The Dark “ é um groove que entrega seus segredos aos poucos, com variações de BPM, coros uníssonos e que ao mesmo tempo inspira afirmação da espiritualidade e a possibilidade de festejar. A faixa serviu de sample para “School Spirit”, produção e Kanye West incluída em seu aclamado disco de estreia, The College Dropout (2004). Ainda há espaço para a necessária e dolorosa despedida em “One Way Ticket”, uma nova dobradinha com Carole King em “Oh No Not My Baby” e “Why I Sing The Blues”, outra versão de BB King, que fecha o trabalho de maneira solar e redentora. Como um triunfo, após tempos difíceis. 

Na época de seu lançamento, Spirit In The Dark foi considerado uma espécie de fracasso comercial, por ter conquistado “apenas” a 25ª posição do ranking de álbuns dos Estados Unidos. Hoje, é amplamente reverenciado como um dos pontos altos da discografia de Aretha e um destaque de sua fase setentista, por conta tanto da musicalidade diversa e sintetizada com excelência, quanto pelo relato honesto e vulnerável da Rainha do Soul. São cinco composições próprias de Aretha, tornando o disco o mais confessional de sua carreira. Confissões carregadas de dor, mas também de resiliência.

(Spirit In The Dark em uma música: “Spirit In The Dark”)

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MARCADORES: Gospel, R&B, Soul