Resenhas

Ari Lennox – Shea Butter Baby

A cantora começa a sua carreira com o pé direito, sem papas na língua para falar sobre sexo e seguindo a linha do R&B de qualidade feito por suas contemporâneas.

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Ano: 2019
Selo: Dreamville/Interscope
# Faixas: 12
Estilos: R&B, Soul, Neo Soul
Duração: 44'
Nota: 4
Produção: J. Cole, Elite, Ibrahim Hamad, Bigg Kid, Christo, Deputy, DJ Grumble, Hollywood JB, Jaylen Rojas, Kojo Masego, Nick Quinn, Omen, Ron Gilmore, Shroom

Há muito em comum entre o disco de estreia da norte-americana Ari Lennox Shea Butter Baby e a série da Netflix She’s Gotta Have It (adaptada do filme homônimo de Spike Lee). Enquanto no seriado a protagonista Nola Darling celebra sua negritude e vive plenamente a sua sexualidade dentro de um mundo em constante transformação, Ari abre o seu diário para contar suas histórias de uma perspectiva muito pessoal e sem grandes metáforas: a vida como ela é. Assim, por vezes, entramos no seu quarto, nos deparamos com a televisão ligada à toa, mensagens se acumulando no telefone abandonado e algum cigarro sempre aceso.

A ligação entre as duas vai além. Assim como Nola conversa diretamente com a câmera para revelar seus pensamentos e pontos de vista, a cantora deixa a melodia de lado em alguns momentos para dar vazão a discursos e desabafos que colaboram ainda mais para o resultado humanizado que ela alcançou neste disco. Essa aproximação confessional permeia toda a obra que não hesita em falar sobre sexo. O tema, inclusive, não se limita às letras: atravessa a voz de Ari e a musicalidade do álbum de maneira geral. “Put that game on, pause / And do it how I like it, baby, nice and slow” (“Comece o jogo, pause / E faça como eu gosto, baby, gostoso e devagar”), canta Ari na faixa “BMO”.

Com produção executiva de J. Cole, Shea Butter Baby reuniu as principais mentes do selo Dreamville (do qual Cole é sócio-fundador) para conduzir os beats, arranjos e gravações que acompanham o conteúdo escrito e cantado pela artista. Não é de se estranhar que a estética trabalhada nas músicas carregue a herança das grandes divas do R&B e do Soul, situando Ari Lennox na descendência dessa linhagem cultural. O estilo Erykah Badu de cantar, por exemplo, em alguns momentos, se faz presente. É o caso, especialmente, “Up Late”. Ao mesmo tempo, BMO reverencia Aaliyah ao revisitar sua “More Than a Woman”.

O resultado de tudo isso é algo que remonta às suas contemporâneas, Jamila Woods, H.E.R. e Jorja Smith. Lembramos de cada uma delas, respectivamente pela ambientação diversa e carregada na música “Static” (que fecha o LP), no vocal potente sobre graves de “I Been” e no aspecto mais Pop do R&B de “Facetime”. Nesse sentido, não há ineditismos radicais no debut de Lennox, no entanto, ele se apresenta como mais um passo na representatividade da mulher negra na música ao tratar de sexo sem papas na língua em uma roupagem contemporânea, refinada e relevante.

(Shea Butter Baby em uma música: “Shea Butter Baby”)

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BOM PARA QUEM OUVE: Erykah Badu, H.E.R., Solange
ARTISTA: Ari Lennox
MARCADORES: Neo Soul, R&B, Soul

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.