Resenhas

Arlo Parks – Collapsed in Sunbeams

Com produção arrojada que transita entre o Neo Soul e o Indie Pop, disco de estreia da cantora britânica impressiona pela profundidade poética

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Ano: 2021
Selo: Transgressive Records
# Faixas: 12
Estilos: Neo Soul, Indie Pop
Duração: 39'
Produção: Gianluca Buccellati

É sempre curioso pensar como todos nascemos sem consciência de si, precisando então aprender, ao longo dos primeiros meses de vida, que não fazemos mais parte de nossas genitoras e estamos em um mundo com tantos outros indivíduos. Anos mais tarde, na adolescência, o processo é o de buscarmos a separação do núcleo familiar e nos aproximarmos de outras pessoas com quem nos identificamos. São duas fases decisivas no desenvolvimento do ser humano, que têm, em paralelo à constatação do distanciamento da mãe ou da família, a formação/o reconhecimento da própria identidade. Se para o bebê esse processo é solitário, o adolescente forma sua visão de si no coletivo.

Aos 20 anos, Arlo Parks coletou histórias de seus últimos anos e reuniu em Collapsed in Sunbeams, seu primeiro álbum, a perspectiva adquirida sobre si a partir dos personagens com quem interagiu e as experiências que compartilharam juntos. É um trabalho autobiográfico que se escora em narrativas afetivas já moldadas pelo tempo, ainda que pouco, e pela maturidade, que parece ser grande. Entre reflexões e pequenas crônicas, a artista britânica nos deixa conhecer um pouco mais de sua história e, intencionalmente, de quem ela é.

Quem lê essas palavras e pensa se tratar de uma obra que apenas reúne coleções de dramas adolescentes, ou lembranças que poderiam estar em um filme da Sessão da Tarde, ficará impressionado com o grau de profundidade de muitas das faixas. Há espaço para os sorrisos nas cenas de paixões mais ingênuas (“Too Good”), mas a audição é marcada por relatos de realidades vividas ou testemunhadas por Arlo – as quais também seriam capazes de moldar intimamente uma pessoa de qualquer idade.

Ela conta sobre Charlie, que encontra no álcool uma fuga rápida para seus problemas, enquanto o tranquiliza dizendo que a dor não durará para sempre (“Hurt”), também sobre Millie, suas crises existenciais e sua solidão (“Hope”) e ainda relembra a amiga que sofria com a raiva do pai (“For Violet”). Tem a história daquela vez que ela se apaixonou por uma menina que tinha namorado (“Eugene”), a de quando se viu presa em uma amizade opressiva (“Bluish”) e até a de um relacionamento que durou apenas dois meses pela homofobia da família de sua namorada (“Green Eyes”). Reforço: vivências inegavelmente significativas na linha do tempo de qualquer pessoa.

De todas as curiosidades ao redor do disco, a maior delas talvez seja a de que sua faixa mais marcante é uma na qual Arlo faz as vezes de observadora, narrando uma cena da qual não fez parte: “Caroline” detalha a briga de um casal em que o refrão é o grito que o homem deu no clímax da discussão, logo antes de ela se levantar e ir embora: “Caroline, I swear to God I tried”. Nas primeiras estrofes, a cantora narra em terceira pessoa. Em seguida, ela faz as vezes do moço e imagina suas palavras descrevendo a situação (“Maybe if she took a breath / She would know I did it all for her”).

Este movimento sintetiza o que Collapsed in Sunbeams propõe – e atinge com maestria. Após viver tantas experiências e ouvir os dramas de pessoas próximas, Arlo percebe e expressa sua empatia também com quem não conhece, como se conseguisse, a partir do que está perto, observar (da mesma forma) aquilo que está distante subjetivamente. É olhar para o casal de desconhecidos que briga a poucos metros de distância e visualizar neles a mesma capacidade de pensar, agir e principalmente de sentir que conhece em Charlie, Millie ou em si própria.

Poderia falar dos arranjos sofisticados dentro de um Neo Soul que está em alta hoje em dia, da produção arrojada do início ao fim ou mesmo de como a voz da cantora se destaca em cada faixa. Mas é difícil escutar o álbum e não notar que seu aspecto mais humano é aquele que fala mais alto. Com seu desenvolvimento como pessoa passado a limpo, Arlo Parks se mostra apta, para não dizer “merecedora”, de notar o mesmo amadurecimento agora em sua carreira e na discografia que acaba de nascer com este trabalho.

(Collapsed in Sunbeams em uma faixa: “Caroline”)

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ARTISTA: Arlo Parks

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.