Resenhas

Arthur Navarro, Kiranpal Singh e Dhiego Valadares – Fusão Ancestral

Projeto une psicodelia, música indiana e congo, resgatando princípios primais da música

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Ano: 2021
Selo: Atlantis Music & Sound
# Faixas: 7
Estilos: Congo, Música Indiana, Psicodelia
Duração: 36'
Produção: Arthur Navarro

A intersecção é marca fundamental da música. O vasto número de possibilidades de combinações entre diferentes gêneros, sonoridades e instrumentos nos dá a impressão de que a música continuará a se expandir eternamente. E, embora seu aspecto sincrético (de misturas a releituras) até possa gerar controvérsia – especialmente no mundo dos samples –, há obras que transcendem qualquer resquício de mera “apropriação”, em ambiciosas fusões que criam novos universos.

Este sentimento une três figuras de culturas e passados musicais distintos em um projeto que em seu título já procura deixar claro seus propósitos: uma Fusão Ancestral. Antes de falar sobre o disco em si, é preciso isolar as partes mostrando de onde parte este projeto. Temos o compositor, multi-instrumentista, produtor e pesquisador capixaba Arthur Navarro, que coloca sua bagagem na música psicodélica a serviço de um panorama musical ainda mais amplo. Somado a ele, o maestro e músico indiano Kiranpal Singh traz toda a tradição da música clássica indiana a partir de belas melodias compostas em um santoor – instrumento de cordas que é tocado com baquetas. Por fim, o percussionista capixaba Dhiego Valadares coloca o ingrediente final para a mistura, por meio de tambores fortes e instrumentos de percussão característico do Congo – ritmo típico do Espírito Santo. Partindo cada um de extremos opostos da música, a proposta é ambiciosa, mas o resultado alcança uma particularidade rara da música –  de que ela está a serviço de algo maior.

Em Fusão Ancestral, a música clássica indiana encontra na psicodelia um espaço no qual se acomoda com facilidade, sem parecer forçado ou artificial. Da mesma forma, o Espírito Santo empresta a batacuda à Índia, impulsionando ainda mais o ar ritualístico e sagrado. E, entre a modernidade da psicodelia e a tradição do Congo, também são criadas pontes que desafiam qualquer purismo musical. É interessante que a fusão destes elementos distintos traz percepções antagônicas, mas que instigam o ouvinte a permanecer atento por todo o disco. Ao mesmo tempo em que é possível perceber características das partes isoladas, o conjunto da obra é autêntico. O diálogo entre as partes é tão fluido que parecem funcionar como vozes em uníssono, mesmo que seja possível identificar alguma particularidade de cada gênero.

O produto desta harmonia nos vem apresentado aos poucos, pela faixa de abertura “Ecos da Dwarka”, um momento em que o transcendental ganha forma na melodia ecoada e grandiosa do santoor. Após este monólogo inicial, o trio está pronto para dar um passo adiante nesta conversa. “O Começo (The Beginning)” vai nos puxando cada vez mais para dentro (ou fora) de nós mesmos, quase como uma metonímia que nos fala constantemente que este é o começo da jornada. “Kashmir Skies” se aproxima da estrutura mais popular de canção, com um quê de Dream Pop, mas sempre referenciando a espiritualidade Indiana e o transe da percussão Congo. “Marcha, Mastro e Fé” é um momento altamente experimental do disco, em que as misturas estão realizadas de formas tão homogêneas que é como se tivessem se tornado um corpo só – este é o momento máximo do disco. Por fim, “Cosmic Wheel” traz aquela reticência final do repertório, que em pleno auge deste laboratório de texturas e sons se encerra de maneira abrupta – mas segue ressoando no ouvinte.

Em um projeto ambicioso, a potencialidade de diálogos entre gêneros musicais é executada com perfeição. Os três músicos são minuciosos em suas especialidades, ao mesmo tempo em que servem a algo que transborda seus respectivos universos – criando outro. A música de Fusão Ancestral é grande. Não porque junta muitos elementos, mas porque se funda em sensações anteriores à massificação desenfreada e a moldes da indústria. É como um mistério ancestral que não se deixa ser inteiramente resolvido, para poder durar ainda muito mais tempo.

(Fusão Ancestral em uma faixa: “Marcha, Mastro e Fé”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.