Resenhas

At the Drive In – in•ter a•li•a

Álbum do grupo que retorna após 17 anos é carregado de ansiedade

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Ano: 2017
Selo: Rise
# Faixas: 11
Estilos: Hardcore, Post-Hardcore, Emo Revival, Post-Punk
Duração: 41:01
Nota: 3.0
Produção: Rich Costey, Omar Rodríguez-López

O futuro não existe, é apenas uma projeção exagerada das possibilidades do presente. E ouvir in•ter a•li•a, o quarto álbum do grupo norte-americano At The Drive In, que ressuscita após um hiato de 17 anos, é como acompanhar um desfasamento temporal: após encerrar suas atividades no auge da carreira em 2001, o presente da banda é feito, na verdade, do futuro daquela que abandonou no passado.

Se observamos a carreira de Cedric Bixler-Zavala e Omar Rodríguez-Lopez com uma visão mais ampla, poderemos ver que o projeto criado pelos dois nunca cessou de produzir conteúdo, apenas assumiu facetas distintas – embora semelhantes – ao longo do tempo. At The Drive In se transformou em The Mars Volta, que se transformou em Antemasque, fazendo com a que a dupla, ao longo dos anos, fosse absorvendo um compêndio de estilos adjacentes ao Hardcore, suplementando o seu repertório com doses de Punk, Emo “terceira geração” e Metal, além de temperos ocasionais de Música Experimental e Psicodélica.

Segundo a psicologia, a ansiedade é um distúrbio causado justamente por um desfasamento temporal, quando uma mente vive na projeção de um futuro que nunca chega. E ouvir in•ter a•li•a é justamente perceber tal ansiedade transformada em música, uma vez que a banda parece viver no “futuro do pretérito”, ignorando sua própria linha do tempo evolutiva para tentar retomar a música que abandonou há 17 anos.

Para a elaboração do álbum, os artistas voltaram a ler, a ouvir, e, enfim, a consumir o mesmo conteúdo que consumiam (e, aparentemente, a pensar do mesmo jeito que pensavam) quando Relationship Of Command (2000) foi elaborado. Temos aqui as mesmas guitarras inflamadas, o mesmo vocal angustiando, a mesma bateria explosiva de outrora. Nas letras, temos o imaginário distópico e surrealista do escritor Philip K. Dick, evocado com a profusão de um vocabulário extenso e enigmático.

in•ter a•li•a exibe temas violentos, de modo que a angústia de Bixler-Zavala e Rodríguez-Lopez parece apenas ter fermentado ao longo do tempo. Se existe uma estranheza no álbum, meio descompassada, meio nostálgica, este vem, no entanto, preencher uma demanda cultural para os órfãos do estilo, além de presentear os fãs da banda com um álbum que é a epítome amadurecida de tudo o que a banda já foi.

(in•ter a•li•a em uma música: Incurably Innocent)

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Autor:

é músico e escreve sobre arte