Resenhas

Atoms for Peace – Amok

Esperado disco do supergrupo liderado por Thom Yorke cumpre expectativas e traz todas as referências eletrônicas possíveis dos últimos anos de carreira do músico.

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Ano: 2013
Selo: XL Recordings
# Faixas: 9
Estilos: Rock Alternativo, Eletrônica, Rock Experimental
Duração: 44:35
Nota: 4.5
Produção: Nigel Godrich

Thom Yorke é um sujeito complexo, algo que faz com que sua genialidade seja ainda mais exacerbada. Averso a entrevistas ou contatos públicos excessivos, ele parece ter um dom de tocar em tudo e transformá-lo em ouro. Desde que o seu grupo principal, Radiohead, resolveu se aproximar mais do lado eletrônico com o lançamento de Kid A, o mesmo se deu com o vocalista. Seja em sua carreira solo, nas parcerias com Burial ou mesmo nós últimos lançamentos de seu grupo, como King of Limbs, Thom se dá bem com sintezadores e batidas sintéticas. Agora no seu novo e estrelar grupo, Atoms for Peace, tal evidência se confirma empiricamente e Amok torna-se um belo disco de estréia.

Unem-se a Yorke nessa empreitada um dos melhores baixisitas do mundo, completo em melodia e técnica, Flea do Red Hot Chilli Peppers, o produtor, multi-instrumentista e parceiro de longa data Nigel Godrich, o percussionista de David Byrne, Mauro Refosco e o baterista Joey Waronker. Os três últimos participaram do primeiro disco solo de Yorke, Eraser de 2006, e Amok soa como uma continuação espiritual deste trabalho. Nele, podíamos ver elementos eletrônicos e sintetizadores em excesso, com a bela voz do cantor sendo versada sobre batidas precisas.

Before Your Very Eyes já demonstra o que estamos pra ver. Uma linha de guitarra repetida, instrumentos sendo acrescentados aos poucos, uma percussão constante e uma batida eletrônica crua mas em um mais tempo rápido. A viagem sonora é alcançada através da voz, sempre onírica e psicodélica de Yorke, trazendo um torpor que acompanhará o ouvinte do começo ao fim desta jornada. Default, logo em seguida, é um pouco mais direta e tem como ponto alto o momento em que os sintetizadores são colocados com os versos “I’ve made my bed, I’m lying on it”. O baixo de Flea começa a dar os sinais de sua importância em um acompanhamento forte e tenso.

Ingenue poderia estar em King of Limbs tranquilamente. A mistura entre linhas de baixo e sintetizador fazem a voz de Yorke ecoar como um fantasma, assombrando romanticamente seus ouvintes. A criatividade está à flor da pele e pode ser vista com um simples percussão que lembra pingos de gota de chuva ou de chuveiro mal fechado. Alguns podem dizer que o disco não tem nenhum momento explosivo, como se andássemos pelo mesmo limiar sonoro, sem ao menos transcendê-lo em nenhum momento. No entanto, este é o intuito de um álbum delicado e preciso, minimalista como a música Eletrônica costumava ser antigamente. Cabe a quem o escuta entrar de cabeça ou não nestes sons – ou aguardar o momento certo para que o álbum possa “explodir”.

Dropped, assim como o seu nome diz, procura “deixar cair a batida” e isso ocorre de forma espetacular. Yorke versa devagar, esperando o momento certo para que Flea possa entrar com uma linha de baixo melódica inesquecível. Unless é o retrato da convivência do cantor com o pai do Dubstep verdadeiro, Burial, e traz aos mais ansiosos a explosão sonora necessária. Instrumentos fluem perfeitamente com grande destaque mais uma vez ao baixo e percussão feitos. Sem antes de acabar, Amok mistura sons de videogame a mais uma linha melódica de Flea. Stuck Together in Pieces é quase um afrobeat eletrônico, percussão e baixo se misturam de forma étnica e convidam o ouvinte a entrar em transe, sendo provavelmente o melhor momento do disco até aqui. Uma linha de guitarra, em um tempo oposto ao visto durante toda a música, meio Math Rock, deixa tudo ainda mais bonito. Caberia uma dancinha à la Lotus Flower para fechá-la com chave de ouro.

As duas últimas faixas são igualmente bonitas. Judge, Jury and The Executioner é mais uma canção para excitar os fãs de Radiohead, com uma guitarra acústica com acordes que poderiam estar em algum disco do grupo. O nome da música, grandioso e épico, também é uma ótima referência aos britânicos. E Reverse Running se inspira no próprio nome para se tornar, agora sim, o melhor momento do disco. Baixo e guitarra fazem linhas opostas, mas dentro do mesmo ambiente. A sensação que se tem quando a mesma é escutada, de forma imaginativa evidentemente, é de se estar andando para trás, em câmera lenta, enquanto tudo ao seu redor está se locomovendo rapidamente e no sentido correto. Ambos pertencem ao mesmo lugar, mas caminham na direção contrária.

Em apenas nove músicas, Atoms for Peace segue um caminho espiritual trilhado pelo seu líder e vocalista nos últimos anos. É difícil não se encantar sendo fã de qualquer momento da carreira deste genial músico. As parcerias foram escolhidas sabiamente e criam um agora supergrupo e que deve encantar e trazer ainda mais vibração em performances ao vivo aguardadas por todos. Mais uma vez, Yorke fornece um tíquete a uma viagem sonora sem volta e inesquecível.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.