Resenhas

Austra – Future Politics

Banda canadense faz disco bem intencionado sobre apatia atual

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Ano: 2017
Selo: Domino
# Faixas: 11
Estilos: Synthpop, Pop Alternativo, Pop Eletrônico
Duração: 45:19
Nota: 3.0
Produção: Katie Stelmanis

“Doctor, what’s the cure for apathy?”, pergunta a voz geladinha da canadense Katie Stlemanis, cérebro criativo de Austra, logo na primeira faixa. A julgar pelo que a banda entrega neste Future Politics, seu terceiro álbum, o questionamento ficará sem resposta. Nem é implicância do crítico musical, é constatação empírica, pura e simples. Engajado, porém apático. Dançante, porém morno. Dinâmico, porém travado. Este álbum tem muito conceito pra pouca música boa, muita programação tecladeira pra poucos momentos dançantes. Vejamos.

Katie tem voz com formação clássica e uma boa intenção: cutucar a apatia de sua geração, a galera que está nos quase-trinta, diante da injustiça social e econômica do mundo. Até aí, aplaudimos com entusiasmo e curiosidade. Seu terreno sonoro é a interseção entre Synthpop atual e influências oitentistas, causando um choque de ideias e sobreposição de detalhes, ou seja, uma overdose mal resolvida de sonoridades. Mas seria um pecado menor se houvesse o elemento matricial para tudo dar certo e que sempre menciono por aqui: boas canções. Ao longo das onze faixas do álbum, com boa vontade encontramos três promissores espécimes, que quase sucumbem a arranjos pouco inspirados ou à falta de vigor reinante. Lembramos que o grupo se declara a fim de fazer um disco de contestação, de confirmação sobre viver num tempo estranho e injusto, conclamando as pessoas para algum tipo de reação. Os títulos de algumas faixas – Future Politics, Utopia, Freepower – confirmam isso.

Intercalando canções mais rápidas com algumas quase-baladas mais climáticas e pungentes, se não fosse por algumas letras, seria difícil identificar algum elemento contestador por aqui. A trinca de boas faixas está mais próxima do potencial dançante do qual a banda se mostra detentora. A faixa-título é bem resolvida, tem uma batida marcial que é temperada por alguns sintetizadores percussivos e outros, que emulam cordas e pianos, criando um clima capaz de se sustentar, digamos, tanto ao vivo quanto na pista de dança, uma vez que, nas mãos de um bom arranjador, ela tem potencial explosivo. Utopia é a melhor faixa do disco, com um clima que toca a face do Pós-Punk oitentista com delicadeza. A boa performance vocal de Katie faz a diferença e realça a boa melodia da canção. Aqui o arranjo funciona belamente, oferecendo um clima de espaço aberto para o refrão, que vem embalado em delicados sons de piano e vocais de apoio bem eficientes.

A terceira integrante desta elite é Freepower, a mais rapidinha e aerodinâmica das três. Funciona por seu diálogo de batidas dançantes e baixo sintetizado, mas seria ainda mais legal que os vocais de Katie não estivessem tão próximo de um registro agudo demais e quase operístico, o que, para este par de ouvidos aqui, soa meio fora de lugar numa canção como essa. Talvez será o caso de rever as harmonias vocais, mas é um detalhe pequeno e não prejudica a boa produção da faixa.

A julgar por este disco, Austra fica devendo um bom conjunto de canções, bem resolvidas e dignas das boas ideias que a banda tem sobre conceitos e temas a serem abordados. Mesmo com o placar desfavorável em relação a acertos e erros, daremos um voto de confiança por conta da disposição em cutucar apatia, consumo exacerbado e bradar por liberdade de escolha e a força que isso tem, especialmente num tempo como o nosso.

(Future Politics em uma música: Utopia)

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BOM PARA QUEM OUVE: Ladytron, Metric, Zola Jesus
ARTISTA: Austra

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.