Resenhas

Autechre – SIGN

Dupla britânica entrega seu disco mais “acessível”, mas conserva experimentalismo ágil enquanto passeia por Ambient Music e Techno

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Ano: 2020
Selo: Warp Records
# Faixas: 11
Estilos: Ambient, Glitch, Experimental
Duração: 65'
Produção: Sean Booth and Rob Brown

O termo “arte contemporânea” costuma ser impreciso. Propostas cada vez mais ousadas e fora de um padrão mais concreto emergem e repensam os limites do experimentalismo para longe de um alcance objetivo. E por estarem distantes de uma zona de conforto, essas obras podem ser percebidas como inacessíveis, ou dotadas de um pedantismo artístico inalcançável, que pressupõe uma sensibilidade artística prévia para que possam ser apreciadas. É ao redor deste pensamento que a obra complicada e desconstruída de Autechre pode ser, às vezes, simplificada de forma um tanto injusta.

Sem dúvida, a dupla britânica construiu uma identidade sonora que prima por uma experimentação nem sempre tão óbvia em uma primeira escuta. Ambiciosos trabalhos como a sequência de discos elseq (2018) com quase 8 horas de duração, ou os sucessivos NTS Session (2018) podem contribuir para uma estranheza de primeira viagem, principalmente pela ousada aplicação de timbres que seus sintetizadores são capazes de produzir – carinhosamente apelidados de “um misterioso demônio” pela Resident Advisor. No entanto, a habilidade da dupla com a música eletrônica não se dá pela capacidade de produzir obras complexas, mas sim de compreender a particularidade de cada som no contexto geral das composições. E aqui, é possível que aquele ar inalcançável ceda espaço para uma abordagem menos intimidadora.

SIGN é o 14º disco da dupla, um que parece abrir espaço para diálogos com formas menos experimentais da música eletrônica. É claro que o grupo não se desvencilhou totalmente daquele espírito audacioso de seus outros discos. Continuamos a presenciar timbres únicos que, por sua vez, propiciam ao ouvinte um leque de emoções bastante peculiares. Por exemplo, a faixa “F7” nos estimula com sons saindo de diferentes lugares do espectro, ao mesmo tempo que sustenta um sintetizador leve e etéreo ao fundo, intercalando insanidade e calmaria. Opor sensações aparentemente antagônicas é um dos pontos fortes da dupla e talvez seja o aspecto do disco do qual Autechre não deseja se livrar tão facilmente.

Entretanto, com um intuito de levar esta forma para um patamar menos hostil, há flertes com outros gêneros da música eletrônica, abrindo espaço até mesmo para harmonias mais convencionais. A Ambient Music e um Techno mais melódico parecem ser os principais campos nos quais a dupla imprime sua voracidade estilística. É como se estivéssemos diante de paisagens sonoras amplas e suaves, mas ao notarmos a matéria-prima das quais são constituídas, percebemos aqueles mesmos timbres hostis e complicados de outros momentos da dupla. Uma sensação de calmaria pintada com cores agressivas e ríspidas. Talvez por isso o disco tenha um tom mais acessível, pois coloca toda a complexa habilidade experimental em formato inteligível. Não que os outros discos fossem ruins ou incompreensíveis, mas neste momento, esta nova dinâmica permite ao grupo alcançar voos mais altos e cada vez mais distantes.

Assim, cada passagem do disco é realmente única. “si00”, por exemplo, traz ondas pulsantes que procuram nos desorientar, ao mesmo tempo que nos acalma com sua melodia harmônica. “au14” é mais dançante, prima por batidas e percussões agressivas construídas em uma grade mais fixa, nos obrigando a senti-las de forma intensa. “sch.mefd 2” tem um mistério entre as diferentes camadas melódicas, algo como uma trilha sonora de Arquivo X se o compositor fosse Aphex Twin. “th red a” emprega a ausência de compassos para construir um belíssimo exemplo de Ambient Music aos moldes Autechre: repleta de cortes e texturas elétricas. Em tom mais brando, “r cazt” encerra o disco no gás, economizando o aspecto mais emocionantes para o final.

Os nomes misteriosos das faixas, junto à sigla do título (que nenhum dos dois produtores desejou revelar o significado), constroem um mistério constante pelo repertório. Um mistério que, por conta da fusão com outros gêneros da música eletrônica, torna-se um pouco mais claro. Mas não totalmente solucionável. Autechre nos mostra, mais uma vez, a sutileza de se dizer muito a partir de poucas, porém valiosas informações. Um disco para compreender melhor a sonoridade do grupo, porém, deixando uma margem essencial para o incerto.

(SIGN em uma faixa: “r cazt”)

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ARTISTA: Autechre

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.