Resenhas

BadBadNotGood – Talk Memory

Com colaboração ilustre de Verocai, as investidas pelo Hip Hop dão lugar a uma reconexão intensa com o Jazz no quinto álbum do trio americano

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Ano: 2021
Selo: XL Recordings
# Faixas: 8
Estilos: Jazz, Jazz Fusion
Duração: 42'
Produção: BadBadNotGood

BadBadNotGood sempre foi um projeto essencialmente experimental. Em seus primeiros registros havia o intuito de misturar Jazz e Hip Hop (inclusive, a gênese da banda surge daí, de três estudantes de música descobrindo sua afinidade entre si através da fusão desses gêneros). Os futuros registros trariam outros elementos – o principal deles, a colaboração vocal de outros músicos. Essas parcerias, de Sam Herring a Ghostface Killah e Charlotte Day Wilson, renderam algumas das melhores faixas da carreira da banda. Agora, em Talk Memory, os canadenses experimentam novamente. São três as mudanças principais que estão no pano de fundo dessa nova fase: 1) a saída de um integrante da banda; 2) a retirada do Hip Hop de sua equação; e 3) a presença do veterano arranjador Arthur Verocai.

Tecladista e membro fundador, Matthew Tavares deixou o então quarteto em 2019 e deixou o destino incerto para um elemento essencial na musicalidade do grupo. Entretanto, quem assume as teclas nesta nova obra é o baixista Chester Hansen, que substitui com maestria a vaga deixada por Matthew. Hansen brilha em faixas como “City of Mirrors” e “Talk Meaning” – na primeira, adiciona notas com classe e precisão a um arranjo grandioso; na segunda, pincela melodias em meio à harpa de Brandee Younger, enquanto os saxofones de Terrace Martin e Leland Whitty costuram cada som.

A mudança mais perceptível talvez seja a segunda. Com o Hip Hop fora da jogada, o que “sobrou” foi o Jazz. E o trio sabe explorar muito bem a vastidão desse gênero. Há no registro um senso de estudo, de explorar e reapropriar velhas experiências sob uma luz moderna. O disco já começa com umas dessas viagens: o single “Signal from the Noise” envolve psicodelia e toques atmosféricos em um Jazz que, ao mesmo tempo, desemboca no Free Jazz e no Avant Garde de nomes como Sun Ra. A guitarra, que ora é ruidosa e áspera, ora é convidativa e acolhedora, pode também nos trazer à mente momentos da obra de Miles Davis em sua fase eletrificada. Tudo isso em um vertiginoso passeio que dura mais de nove minutos.

A obra segue assim, remetendo ao Free Jazz (em “Timid, Intimidating”), Spiritual Jazz (em “Talk Meaning”), Smooth Jazz (em “Love Proceeding”) e Ambient (em “Unfolding (Momentum 73)). São ensinamentos (ou memórias, se preferir) de nomes como Pharoah Sanders, John Coltrane e Charlie Parker, recriados e reconstituídos aqui de maneira única. E apesar de olhar para o passado, o grupo não se prende a ele. Com convidados como Laraaji, Karriem Riggins, Martin e Younger, o trio também se volta ao presente.

O terceiro fator de mudança é a presença ilustre de Verocai, uma lenda viva para esses três músicos fissurados em Jazz. Depois de uma parceria muito bem-sucedida em um show em São Paulo (produzido pelo Monkeybuzz em 2019), a parceria prosseguiu e desaguou neste registro, que tem cinco de suas oito músicas criadas a partir dessa colaboração. Arthur injeta tutano nas composições com orquestrações belíssimas e encorpadas. O disco parece ganhar uma qualidade cinematográfica nessas músicas, que com muito dinamismo e alguma dramaticidade parecem contar histórias – mesmo que sem letras.

Em seu quinto disco, Talk Memory, BBNG chega com sua proposta mais ambiciosa – em certa medida, arriscada. As investidas pelo Hip Hop dão lugar para uma aposta na reconexão com o Jazz e o trio, de quebra, ainda colabora com um de seus heróis. E tudo funciona muito bem. Mais um acerto de uma carreira que tem mais acertos do que erros.

(Talk Memory em uma faixa: “Signal from the Noise”) 

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ARTISTA: BadBadNotGood

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts