Resenhas

Band of Skulls – By Default

Trio inglês busca alternativas para seu som

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Ano: 2016
Selo: BMG
# Faixas: 12
Estilos: Blues Rock, Rock Alternativo, Rock
Duração: 40:27
Nota: 3.5
Produção: Gil Norton

Já estava aqui pensando: Ok, lá vamos nós para mais uma bandinha de Rock dos anos 2010, invocadinha, supostamente crua, supostamente com referências de Led Zeppelin e Blues primordial, minimalista, com dois, no máximo três integrantes, fazendo “som básico”. Sim, má vontade de minha parte, mas lhes asseguro que tais impressões ficam no meio do caminho da audição, mesmo quando o artista, de fato, ostenta estas características. O que quero dizer com essa abertura de resenha de By Default, o novo álbum do trio inglês Band Of Skulls, é que ele, apesar de ter um passado no qual tais detalhes se inserem sem qualquer problema, conseguiu se libertar destas amarras estéticas e entregou um álbum que não tem qualquer receio de mergulhar em referências do passado, mas também não teme enveredar por caminho distinto do que estamos acostumados a ver por aí.

Sendo mais específico: sai o Blues metalizado do Zepelim de Chumbo e entra em campo a malandragem, a malemolência, a lascívia e a ironia de The Rolling Stones. Vejam, é uma grande, enorme, descomunal mudança. Mais que isso: é uma demonstração de talento e uma declaração de intenções. Se todos os artistas de Rock em atividade nestes tempos entenderem que podem visitar o estilo e não necessariamente povoar seu som com estes traços já manjados, teremos um sopro de novidade. E Band Of Skulls ainda tem a manha de centrar fogo numa fase “maldita” da veterana banda de Jagger, Richards e cia, ao pegar emprestado todo o flerte com a Disco Music que eles empreenderam em 1978, com o álbum Some Girls e, dois anos mais tarde, com o subestimado Emotional Rescue. O resultado é animador, não só por esta simpática mudança na orientação, mas pela capacidade que o trio tem de revestir tudo isso com a força e juventude necessárias para repaginar essa sonoridade que, para todos os efeitos, é incapaz de envelhecer.

Black Magic, logo na abertura do disco, não entrega o jogo. Pelo contrário, aponta para mais do mesmo, para a tal sonoridade roqueira padronizada de nosso tempo. Logo em seguida, no entanto, Back Of Beyond vem turbinada por um pequeno, simpático e endriabrado riff de guitarra que poderia vir de uma cruza entre o estilo maroto do próprio Keith Richards com a simplicidade eficaz de Lou Reed. A levada é dançante, estradeira, rápida. Killer chega com uma boa bateria na abertura, condução misteriosa e econômica com linha de baixo e uma herança que, sim, é de Led Zeppelin, mas devidamente processada numa lógica imediatista. Bodies volta com o elemento dançante e guitarreiro no lugar, mas ampliando o leque de influências para dois aplicados discípulos oitentistas dos Stones: o inglês The Cult e o australiano INXS. A melhor faixa do álbum é a sensacional Tropical Disease, com pinta de canção cinematográfica, personificada na tentativa de imprimir alguma latinidade, que fica pelo caminho, restando um andamento quebrado, com bateria tentando emular um sambinha sem muito sucesso.

As variações possíveis na alquimia entre Rock e música para dançar seguem ao longo do álbum. Em So Good, cantada pela baixista Emma Richards, a química pende para algo que uma banda como Duran Duran poderia fazer hoje em dia sem qualquer prejuízo. This Is My Fix já tem guitarras pesadas, mas ostenta vocais desleixados intencionalmente, quebrando previsões, principalmente no refrão, que é melódico e arejado. Little Mamma é psicodélica e lembra muito a mutação roqueira que Depeche Mode assumiu na virada dos anos 1980/90, sobretudo no álbum Violator. Embers investe na barulheira inicial garageira, mas emenda andamento clássico e pausado, roqueiro e Pop ao mesmo tempo, sem pressa. In Love By Default é uma canção imprevisível, com efeitos, mudanças de andamento e surpresinhas ao longo de seu curvilíneo percurso. Erounds traz mais Stones em mutação Rock’n’Disco, com linha de baixo sensualzinha e vocais misteriosos. O final surge com Something, climática, lenta, entre quatro paredes, com destaque para o vocal de apoio de Emma, no lugar certo.

Quem pilota este álbum é o produtor Gil Norton, que já assinou discos de Foo Fighters e Pixies, logo, um sujeito cascudo. Sua presença dá aval e viabiliza o desejo de mudança de Band Of Skulls, que não está a fim de acomodar-se e manda ver neste movimento de redefinir seu padrão de interpretação do Rock em 2016. Se neste novo álbum já conseguiu deixar o cético articulista com boa impressão, que venha logo o sucessor deste bom By Default, que pode consolidar ou mandar para escanteio este simpático trio de Southampton. Vamos aguardar.

( By Default em uma faixa: Tropical Desease)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.