Resenhas

Barrie – Barbara

Unindo referências distintas com timbres únicos e oscilando entre o indie e o pop experimental, produtora e compositora traduz um emaranhado de sentimentos

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Ano: 2022
Selo: Winspear
# Faixas: 11
Estilos: Bedroom Pop, Indie Pop, Psicodelia
Duração: 34'
Produção: Barrie Lindsay

Em diferentes resenhas, volta e meia o termo “sinceridade” aparece como adjetivo para caracterizar alguma obra. O que, afinal de contas, é um disco sincero? É quando o artista fala tudo o que pensa, sem qualquer tipo de cautela ou filtro social? Ou isso não tem tanto a ver com a obra em si, mas com a percepção e identificação do ouvinte com os temas expostos? Ser sincero é algo bom ou ruim em um álbum musical? As respostas a essas perguntas podem nos conduzir a diferentes modelos de interpretação, mas os pontos de vista acerca da sinceridade confluem para uma mesma ideia: a “sinceridade” é uma relação, pois nunca acontece de maneira isolada. É justamente nessa interação que surgem diferentes linguagens para dar forma àquilo que está dentro do artista como um grande desordenado. Mas se existe uma relação de sinceridade, por que os sentimentos do artista precisam ser formatados para serem expostos? Por que esse sentimento primordial não pode sair para fora como é?

Ouvindo a curta, porém sólida, discografia de Barrie Lindsay, encontramos uma evidência de que aquele caldo cru de emoções pode, sim, ser exposto. A produtora e compositora de 32 anos coleciona registros que evocam este sentimento de sinceridade, mas sempre de uma forma muito particular: munida de uma sonoridade que é, ao mesmo tempo, confortável e esquisita. Barrie procura mostrar suas letras altamente introspectivas fugindo daquele estereótipo do bedroom pop mais simples, apostando em timbres psicodélicos como uma de suas principais formas de chamar atenção do ouvinte. Seu disco de estreia, Happy To Be Here (2019), é uma amostra clara de como isso se dá na prática. Com ajuda de seus colegas de banda, ela estabeleceu seu lugar dentro do indie, um gênero cuja identificação de letras entre público e artista é algo essencial. Contudo, com a pandemia, aquela interação entre os membros de sua banda cedeu espaço para o isolamento completo e o que parecia ser uma sentença de morte para abarcar aquela sinceridade preciosa, se tornou encontro de Barrie consigo mesma.

Com a ajuda de sua esposa Gabby, Barrie compôs e produziu todas as 11 faixas de seu novo disco, Barbara. Para isso, ela teve que abandonar o seu típico processo coletivo de composição e centrar tudo em si mesma. Em entrevista a Consequence of Sound, ela comenta que quando tinha alguma dúvida sobre arranjos e letra, perguntava para seus colegas de banda. Mas, ao concentrar todo o processo para si, Barrie teve de assumir uma postura mais assertiva – era ela quem tinha que achar maneiras de “resolver” certas canções. Talvez aí esteja uma das raízes para o oceano repleto de alegria, melancolia, dúvidas e angústias que é Barbara. E nessa confiança em si própria como condutora das direções artísticas é que vemos aquela sonoridade pop psicodélica alcançar novos voos. Os timbres escolhidos a dedo são um dos destaques do disco, dosando entre a nostalgia dos sintetizadores dos anos 1980 e as novas amplitudes mais futuristas.

Ao longo das 11 faixas somos submetidos ao que há de mais interno e, quase visceral, em Barrie. A faixa introdutória “Jersey”, por exemplo, é ótima para introduzir esse jogo de contrastes – melodia e arranjos ensolarados e alegres, em uma música, entretanto, que transborda ansiedade. “Concrete” usa e abusa dos sintetizadores pulsantes e cíclicos para criar uma espécie de limbo sufocante enquanto ela nos dá conselhos de como administrar angústias românticas. “Bully”, por sua vez, traz o formato acústico, ideal para evocar um sentimento de proximidade das canções de acampamento, ainda que sob timbres hipnóticos. Seu single “Quarry” é um dos destaques do trabalho, principalmente pela dosagem de elementos que isolados seriam estereotipados (sintetizadores e canções de amor), mas que juntos funcionam perfeitamente. Por fim, “Bloodline” retira todas as percussões e marcações rítmicas de bateria para propor uma metonímia do disco: todas as cores de Barrie soltas e correndo livremente por nossos ouvidos.

A paleta de sons com a qual Barrie pinta Barbara é riquíssima e, como consequência, ela consegue encontrar recursos para tentar representar aqueles sentimentos amorfos que estão dentro dela. Nessa mistura de frases para si própria, metáforas preciosas, timbres psicodélicos e arranjos que oscilam entre indie e pop experimental, estão dispostos todos os elementos necessários para que Barrie entregue uma potente sinceridade. É como se, ao invés de procurar no outro a solução de seus problemas, ela se voltasse para si buscando essas respostas. E o que ela encontra é algo acolhedor, mas também duro de ser ouvido.

(Barbara em uma faixa: “Quarry”)

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ARTISTA: Barrie

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.