Resenhas

Barzin – To Live Alone In That Long Summer

Em viés depressivo, disco do canadense é destaque da nova geração

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Ano: 2014
Selo: Monotreme Records
# Faixas: 9
Estilos: Folk, Rock, Indie
Duração: 32:48min
Nota: 4.0
Produção: Sandro Perri

A modernidade gera pessoas coloridas, saltitantes, postando selfies pelas redes sociais adentro. Para cada centena delas, talvez haja uma ou duas (no máximo) como o canadense Barzin Housseini. Introspectivo, vivendo em algum apartamento de fundos, sem muito sorriso ou paparico da pessoa amada, experimentando doses moderadas ou intensas de solidão. Não sabemos se Barzin se encaixa num desses perfis, mas as nove canções contidas no seu quarto trabalho apontam a direção para a melancolia, a contemplação ou, simplesmente, uma existência discreta em meio à urbe. A impressão que imediatamente se instala com a audição de seu quatro trabalho, To Live Alone In That Long Summer, é a de um dia cinzento e frio, daqueles que atravessamos com saudade de alguém ou de nós mesmos. É um disco, digamos, deliciosamente tristonho.

A praia melódica de Barzin é o Folk Rock alternativo dos anos 90, tempo em que os jovens músicos, compositores e cantores perceberam que, mesmo com todas as facilidades da sociedade e das cidades, estavam irremediavelmente sozinhos. É música bonita, contemplativa e que nos leva àquela sensação de autocomiseração, inevitável em várias fases das nossas vidas. Lembra Grant Lee Buffalo, Eliott Smith, Mojave 3, Mazzy Star e um monte de formações que nasceram, existiram e morreram em cerca de dez anos, que forneceram trilha sonora do chamado “choro no cantinho”. É tudo dolorido, mas muito bonito.

A primeira canção, All The While tem andamento lento, revestida por guitarra acústica, cello, bateria e baixo, como se caminhassem juntos num fim de tarde com a voz de Barzin na medida certa entre a monotonia, a contemplação e a consciência. Without Your Light vem em seguida e traz um fraseado Pop em sua introdução, mas a sensação de fluidez é abortada em nome de um clima lento, com lembranças do Verão, aquele momento em que tudo é possível na vida de um jovem do Hemisfério Norte. In The Dark You Can Love This Place é um pequeno tributo à solidão, com bateria marcial e gotas de piano pingando aqui e ali, formando um clima de sonho. Stealing Beauty é outra beleza com instrumental delicado e vocais recitados, que parecem vir como chuva numa paisagem da janela lateral do quarto de dormir quando não se vê nada além da neblina.

Fake ‘Til You Make It é a melhor canção do disco e uma das mais belas deste ano, mesmo ainda em abril. O clima é puro Grant Lee Buffalo fase Might Joe Moon (1994) e traz a harmonia mais bela possível entre vocais, pianos e cello, com uma bateria onipresente e a sensação que Barzin aponta a tristeza e as nuances de cinza como se fossem etapas necessárias para alguma modalidade discreta de felicidade. In The Morning é, como o nome já diz, uma olhada para fora de casa naquele momento imediatamente antes da aurora, em que não sabemos a cor do dia que virá. You Were Made For All Of This é um aceno ao seu Nick Drake interior, menos triste, entretanto. O verão como momento de plenitude, como uma inversão temporal na qual passamos da vida adulta para a adolescência surge de ponta-cabeça em Lazy Summer, que serve como condução para a última canção do disco, It’s Hard To Love Blindly, que fala sobre amor, não-correspondência, delicadeza, contemplação e como lidar com algumas verdades incontestáveis da vida.

Barzin fez um disco belíssimo sobre o lado cinza da existência na metrópole, de dias nublados, noites sem estrelas, tudo muito familiar, verdadeiro e, acima de tudo, belíssimo. Ouça logo.

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BOM PARA QUEM OUVE: Iron & Sea, Mojave 3, Grant Lee Bufallo
ARTISTA: Barzin
MARCADORES: Folk, Indie, Ouça, Rock

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.