Resenhas

BC Camplight – Shortly After Takeoff

Caótico e autêntico, Brian Christinzio nos oferece uma janela pela qual espiamos ele se observar no espelho

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Ano: 2020
Selo: Bella Union
# Faixas: 9
Estilos: Indie, Indie Rock, Art Rock
Duração: 33'

(“I told my Mom I wanted to kill myself / She said ‘Brian, grow up / You’re 40 years old, ain’t it time to stop that shit’ / But I can’t change the world / And by the way, Mom / I’m 41 and I’ve just begun”)

É difícil entender se o diagnóstico de doença mental foi tido por Brian Christinzio como uma sentença com a qual ele precisa conviver, ou, então, como a liberdade de se entender no mundo diferente do que é considerado “normal”. Shrortly After Takeoff, seu quinto álbum como BC Camplight, dá pistas sobre como ele é capaz de transitar entre esses dois polos em seu dia a dia. E a obra parece mesmo ter esse propósito: oferecer ao ouvinte uma janela pela qual espiamos ele se observar no espelho.

Não por acaso, trata-se de um disco complexo em suas estruturas, diverso em suas referências e um tanto caótico na maneira com que se apresenta. Cheio de ironia, BC monta uma ambientação espetacular (no sentido mais raiz do termo) para entregar ao mundo uma amostra do que é viver dentro de sua cabeça. O som é volumoso em suas muitas camadas aqui, sem muita energia em um momento seguinte, mas evidentemente despreocupado em trazer algum equilíbrio. Afinal, faz sentido uma representação de sua condição mental ser trabalhada sem muita estabilidade, nem moderação.

Para isso, o disco apresenta timbres contrastantes, como uma guitarra fazendo referência a um Rock engessado e datado acompanhada de sintetizadores e instrumentos de sopro – como na excelente abertura “I Only Drink When I’m Drunk”. As faixas ora abraçam dissonâncias como se não fizessem questão de agradar o ouvinte, ora oferecem ambientações de um Pop que conhecemos bem, caso da aparentemente ensolarada “I Want to Be in the Mafia” ou da oitentista “Cemetery Lifestyle”.

No geral, BC não é nem delicado, nem tão melancólico no trato de sua condição mental. É difícil saber quando ele está sendo mais franco do que precisava (como em “Back to Work”, de onde vêm os versos que abrem o texto) ou plenamente irônico. Os exageros presentes em um cotidiano que luta contra a vontade de não estar vivo são comunicados com grande personalidade e o ouvinte, esteja ele ou não no espectro de doenças mentais, contempla a dificuldade de conviver com esse diagnóstico em alto e bom som.

(Shortly After Takeoff em uma faixa: “Ghosthunting”)

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ARTISTA: BC Camplight

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.