Resenhas

Beach House – Once Twice Melody

Oitavo disco repassa quase 20 anos de uma história consagrada dentro do dream pop e traz referências a diferentes possibilidades do gênero

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Ano: 2022
Selo: Sub Pop
# Faixas: 18
Estilos: Dream Pop, Chamber Pop
Duração: 84'
Produção: Beach House

O dream pop é um gênero que se sustenta pelo mistério. Desde o meio da década de 1980, época em que as primeiras bandas começaram a experimentar a paleta reverberada e doce de sonoridades, toda a estética em volta do gênero se beneficia de informações imprecisas. São integrantes que se vestem normalmente (quase um normcore), mas fazem um som que parece ter sido composto diretamente para viagens espaciais. Falam sobre temas como decepções amorosas, mas escondem suas vozes sob várias camadas de efeitos. É frágil, mas ao mesmo tempo, poderoso. Apesar de ter se transformado bastante ao longo das décadas, essas características parecem indispensáveis para as diferentes bandas do gênero. Seja no formato reduzido e acústico de Mazzy Star, na distorção infinita de My Bloody Valentine ou na parede sonora de reverb de Slowdive, há sempre uma inovação associada àquele mistério primordial. Além disso, o tempo é uma variável a ser considerada nesta equação, pois os grandes nomes do dream pop frequentemente foram atravessados ou por um hiato indefinido ou pelo término repentino da banda.

Entretanto, o duo Beach House, apesar de ter começado um pouco mais tarde do que as demais bandas citadas, mantém-se na ativa até hoje e a evolução de sua sonoridade é certamente algo que precisa ser estudado como um organismo de vida própria. Victoria LeGrand e Alex Scally compõem juntos há quase 20 anos e a estética deseus discos tem sido relevante para diferentes gerações. Teve gente que descobriu o grupo em uma antiga propaganda da MTV que apresentava novas bandas. Outros conheceram pelo boom dos blogs musicais no final dos 2000 – como na clássica resenha de Devotion feita pela Pitchfork (Best New Music na época). Até mesmo a geração Z não ficou imune aos encantos do duo onírico, repostando vários TikToks que usavam o single “Space Song” (Depression Cherry, 2015),  canção que soma mais de 300 milhões de streams no Spotify. Ao longo destas quase duas décadas de carreira, Beach House sempre fez questão de explorar os diferentes lados do Dream Pop, seja mudando o tema de suas composições, ou procurando sonoridades mais peculiares para integrar a seus alicerces já conhecidos. Tamanhas são as modificações ao longo de cada disco que, por vezes, o rótulo Dream Pop não é suficiente para dar conta da criatividade constante. Dá para perceber que o gênero e o duo têm uma história longa e o mais recente do Beach House soa justamente como uma ode ao Dream Pop e suas variantes.

A conexão do duo com essa linguagem é tão intensa que um disco normal seria muito pouco e Once Twice Melody se apresenta como um álbum duplo dividido em quatro capítulos. Ao todo, 18 músicas formam uma espécie de documentário sobre o Dream Pop, na medida em que cada um desses capítulos apresenta uma identidade própria. A princípio, o disco seria cortado pela metade, restando apenas nove canções e sendo lançado como em formato simples. No entanto, o duo fez questão de manter todas as canções por entender que elas funcionam como um bloco indivisível. Este preciosismo com sua arte revela que a homenagem ao Dream Pop foi uma preocupação latente do duo, afinal, apesar de cada parte do trabalho ter uma aura própria, todos são unidos sob um mesmo denominador comum: a história do Beach House.

Como dito, temos quatro capítulos dividindo esse grande repasse histórico. Não é como se cada capítulo se referisse a  sonoridades ou discos específicos, mas, sim, uma amálgama de diferentes características. A primeira parte, lançada como EP antes do disco, acentua as camadas de sintetizadores, pendendo para a ambient music, mas se mantendo firme no indie com diferentes instrumentos de corda e baterias distantes – destaque para “Superstar”, faixa de seis minutos que transcende tempo e espaço por meio de uma imersão profunda dos timbres. Já na segunda parte somos jogados para um espectro mais feliz do Beach House e como melhor representante temos a romântica e lisérgica “New Romance”, repleta de efeitos tão brilhantes e ensolarados que chegam a nos cegar – uma particularidade com a qual os fãs de longa data estão acostumados. A terceira parte trabalha com repetições e estruturas mais pop. Seria o capítulo mais acessível do grande trabalho, pegando emprestado do Indie aquelas melodias ideais para serem cantadas em coro, como em “Only You Know”. A parte final parece ser um amplificador das melhores partes do duo, com momentos preciosos nos lembram de diferentes momentos, como “The Bells” que remete ao icônico Bloom (2012) e “Many Houses” ressoando Teen Dream (2010).

Once Twice Melody marca a consolidação do Beach House como figura fundamental do dream pop. As 18 faixas são construídas de maneira tão fiel ao passado da banda e do gênero que o repertório é quase como uma coletânea. E aí está o grande barato do disco: ao navegar por diferentes momentos e possibilidades do dream pop, o duo repassa a sua própria história e os caminhos percorridos. É como um “Greatest Hits” (ou o brasileiro “Perfil”), mas no lugar de um compilado rememorativo, temos novas demonstrações das grandes qualidades do grupo.

(Once Twice Melody em uma faixa: “Superstar”)

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ARTISTA: Beach House

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.