Resenhas

Beck – Morning Phase

Novo disco em mais de seis anos é bonito e ensolarado,na medida certa para se tornar sua trilha sonora

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Ano: 2014
Selo: Capitol Records
# Faixas: 13
Estilos: Folk, Folk Psicodélico, Blues
Duração: 47:12
Nota: 4.0
Produção: Beck

Antes de ler esta resenha, peço que o leitor se identifique em um destes dois grupos: aqueles que já escutaram Sea Change, marcante disco na carreira de Beck, e aqueles que nunca chegaram perto da obra. Caso você faça parte do primeiro grupo, esqueça por favor a melancólica expressão acústica do cantor. Faça que nem este que vos escreve e não se preocupe com qualquer semelhança entre os dois álbuns, apesar do inevitável pensamento. Para quem se enquadra no segundo grupo eu só lhe digo: relaxe.

Seria muito fácil resumir Morning Phase como o sucessor espiritual de Sea Change. Os músicos são os mesmos, o estúdio é o mesmo e o formato é bastante similiar. O pai de Beck faz orquestrações em instrumentos de corda da mesma forma e o próprio músico, após seis anos de recesso na confecção de discos (mas não na produção de outros artistas), confessa a clara inspiração. Por isso que devemos esquecer estas afirmações, pois elas já estão dadas, já fazem parte do nosso inconsciente crítico antes da primeira “escutada” e continuarão por lá. No entanto, as similaridades, apesar de evidentes nos deixam míopes para o que realmente importa aqui: a qualidade deste disco.

Dentro de qualquer trabalho, a revisão daquilo que fizemos de bom e poderíamos replicar é constante. Entretanto, resumir-se a cópia parece muito mais tentador do que absorver as ideias. Quando Morning, a continuação da introdução Cycles, inicia-se com o mesmo acorde Mi da também introdutória Golden Age do disco de 2002, temos a leve impressão de algo pode estar errado. No entanto, enquanto ambas são expansivas, a nova canção ganha profundidade por justamente representar um momento distinto na carreira do músico. Se há mais de dez anos Beck se via refém da criação de uma obra que pudesse representar o seu estado de profunda tristeza e melancolia – o término de um relacionamento duradouro viria a deprimí-lo-, agora o mesmo se vê em uma fase de aproveitar a vida com sua esposa e dois filhos.

A beleza nos parece tátil em cada uma das faixas aqui, sendo evidente a vontade do cantor em criar o seu disco mais belo e bem produzido. Temos a sensação constante de que estamos diante de uma das melhores trilhas sonoras para road trips já produzidos, aquele som leve e cativante que nos permite viajar de dois modos: através do veículo e da mente, indo a lugares distantes em ambas maneiras. Muito mais psicodélica em suas texturas, a obra se propõe a alegrar e motivar o ouvinte ao invés de colocá-lo em uma introspecção melancólica.

No entanto, se enxergávamos Beck próximo do ouvinte no disco irmão, agora a sensação é de distância. Certamente, é um disco menos embriagado e mais sóbrio, mais focado na instrumentação e menos confessional. As letras ficam de lado, mas não nos importamos muito com isso. Heart is a Drum é um Blues da melhor qualidade, lindo e cheio de efeitos na voz do músico que iluminam o ambiente e a música. Say Goodbye, mesmo que signifique o que seu título diz, não nos parece triste em nenhum momento, soando mais como um “até logo” do que um “adeus”.

Linhas de banjo são escutadas nos lembrando uma atmosfera interiorana e descompromissada, como na faixa anterior ou em Country Down. A distância citada anteriormente diminui aos poucos quando a conexão dessa vez se dá através de um dos melhores momentos de voz do cantor e sua banda de acompanhamento. Blackbird Chain é a acompanhante perfeita para um encontro romântico enquanto Unforgiven foge um pouco do formato acústico, utilizando-se de sintetizadores para aguçar a experiência do ouvinte. Aliás, o tema de direção na estrada é retomado aqui, assim como ocorre em Golden Age mas a visão é muito mais letárgica. As orquestras de fundo acabam transformando esta em uma das melhores músicas do disco.

A maturidade é claramente notada em Blue Moon, uma referência direta à grande inspiração da carreira do músico, Nick Drake. O falecido jovem cantor de Folk, se mostrou presente em grande parte de Sea Change, seja através na carga emocional ou no intimismo sonoro e esta faixa nos parece uma grande homenagem ao talvez maior disco de sua carreira, Pink Moon. Cinematográfica, é de longe a faixa com o melhor timbre de voz de Beck em todo disco. Já Wave poderia muito bem estar presente em qualquer trilha sonora feita por Hans Zimmer com suas belíssimas linhas de violino.

Mesmo que conceitualmente influenciado por uma obra tão importante em sua carreira, o músico conseguiu criar um ótimo disco que sabe explorar as melhores qualidades vistas anteriormente ao mesmo tempo em que se propõe a algo novo. A tranquilidade emana por todos lugares aqui e podemos sentir o ambiente favorável e ensolarado nesta fase matutina de Beck. Evidentemente, comparações serão feitas e é por isso que escutar esta obra como se fosse o seu primeiro contato com músico se faz necessário. Quebra-se assim pré-conceitos, nos deixando livres para relaxar em uma bela experiência sonora. É melhor que Sea Change? Provavelmente não, mas não necessariamente pela qualidade sonora, mas pela falta de ineditismo. Seguindo os conselhos presentes em Turn Away, ao invés de pensar, devemos nos tornar o silêncio e aproveitar o som ambiente ao nosso redor – no caso, este lindo álbum.

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BOM PARA QUEM OUVE: Sun Kil Moon, Nick Drake, Bon Iver
ARTISTA: Beck

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.