Resenhas

Beirut – No No No

Novo álbum de Zach Condon é um milagre de sutilezas

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Ano: 2015
Selo: 4AD
# Faixas: 9
Estilos: Pop Alternativo, Rock Alternativo, Folk Alternativo
Duração: 29:23
Nota: 4.5
Produção: Zach Condon e Gabe Wax

Beirut surgiu há pouco menos de dez anos, conduzido por um surpreendente moleque de 19 anos chamado Zach Condon. A ideia dele era empreender uma viagem musical original e arriscada pelas sonoridades do Leste Europeu, turbinando tal escolha com metais mexicanos e cançonetas francesas, tudo isso sem sair do quarto, da casa dos pais, em Albuquerque, sudoeste dos Estados Unidos. As influências vieram, segundo a lenda, de uma viagem feita por ele aos dezesseis anos, mas tal evento permanece envolto em nebulosidade folclórica, com a verdade sucumbindo ante ao fato que Zach sempre foi um nerd musical, antissocial e recluso, preferindo tocar acordeão do que empunhar uma guitarra. Deu no que deu.

Sempre achei que Beirut parecia com um detalhe marcante do filme Fabuloso Destino de Amélie Poulain, aquela adoravel sucessão de fotos nostálgicas do mundo todo, tiradas de lugares às vezes mais próximos que a esquina de casa, mas envoltas na aura certa, com a história adequada. Assim foi a carreira da banda por três discos, uma mistura de Rock indie consciente e essa tal musicalidade dos Bálcãs, meio que decalcada de um almanaque qualquer. Funcionava, porém, quem iria atestar a validade – ou não – da empreitada de Condon? Fez sentido, funcionou e caracterizou seu trabalho até bem pouco tempo atrás.

Na verdade, o intervalo de quatro anos entre The Rip Tide, álbum anterior e No No No esconde mudanças importantes na vida de Zach. Exausto de excursionar, hospitalizado por conta de estresse, com o casamento ferido de morte pela rotina inconstante, o sujeito parou. Separou-se, encolheu-se, reencontrou-se e percebeu que este glacê étnico e instrumental na música que fazia não mais refletia o que sentia agora, aos 29 anos. Quem já passou da idade sabe bem o abismo que nos separa do que somos aos 19 do que nos tornamos dez anos mais tarde, certo? Condon foi capaz de entender tais mudanças e, a partir de uma nova vida, casado com uma outra mulher e viajando constantemente para o país dela, a Turquia, viu que era tempo de gravar novamente. Sendo assim, transformado e com vontade de mostrar o que sentiu nos últimos tempos, Zach coloca Beirut a serviço de uma busca interior e se sai bem.

As nove canções do álbum totalizam menos de meia hora, convidando o ouvinte para um passeio sob céu cinzento, provavelmente perto do mar, no qual Condon lhe pede permissão para oferecer postais em tom sépia de algum momento de seu passado recente. A narrativa é convincente, casa bem com a imagem e você se pergunta como tudo isso é possível ser visto/pensado/sentido apenas a partir de estímulo auditivo. Gibraltar, a faixa de abertura, é uma alusão ao ponto em que África e Europa quase se tocam, talvez uma metáfora de como tudo pode ir e vir rapidamente na vida. O instrumental agridoce funciona como uma câmara de descompressão para os fãs que vierem em busca das cirandas ciganas de outrora. O mesmo podemos dizer da faixa-título, que ainda brinca com a eloquência instrumental de antanho, mas já insinua a chegada de uma certa melancolia, traduzida no fraseado repetitivo de teclados, as intervenções de metais e a voz entediada de Zach.

Da terceira faixa em diante, At Once, o verdadeiro charme do disco se revela. Uma bela aura de canções, que podem ser rascunhos de clássicos do Pop setentista se ergue, mas sem qualquer indício de nostalgia, mais como uma forma natural de Condom expressar-se. Uma sutil parede de metais e piano compõe um invólucro simples na econômica melodia da canção, abrindo caminho para August Holland, cheia de respingos de citações a discos setentistas de Paul McCartney, partindo para o impressionista instrumental As Needed, todo acústico, misterioso e fugaz como uma caminhada na beira da Praia de Copacabana num fim de tarde de julho. Serve como ponte para o que seria o segundo lado do álbum, que chega falsamente animadinho com Perth, feita a partir do choque entre o registro de Zach e uma melodia que tenta ser ensolarada por trás das nuvens. Pacheco tem leveza psicodélica construída sobre a base de marteladas num Fender Rhodes e em vocais de apoio que parecem gravados depois do almoço. Fener é totalmente influenciada por The Beach Boys em sua fase menos conhecida, bem longe das praias e dos carrões, já às voltas com as encrencas do mundo, em plenos anos 1970. So Allowed encerra os trabalhos em ritmo de valsa, leve como a brisa, bonitinho como, sei lá, um filhote de cachorro te recebendo na porta de casa.

No No No é uma beleza feita de emoções palpáveis, confissões confiáveis, alternativas transitáveis. É mais como quando a gente quer dizer algo mas prefere fazer sem (apenas) palavras e insere citações, referências que só nós conhecemos. Beirut consegue aqui um milagre de sutilezas. Bravo.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.