Yowzers é o novo álbum do compositor, improvisador, instrumentista e folclorista musical de Chicago Ben LaMar Gay. Trata-se de um trabalho grandioso, uma coleção de 12 faixas que marcam um salto adiante na carreira do poliglota musical, em que ritmos corporais ancestrais e narrativas melódicas intuitivas se fundem numa espécie de música humana e universal.
Achei que estava delirando quando senti um tempero de maracatu brotando de uma das faixas de Yowzers. No entanto, em poucos minutos, fica claro que existe de fato uma conexão do músico com o Brasil – e ela passa por Hermeto Pascoal e Heitor dos Prazeres –, embora essas referências sejam relativamente discretas. Ao longo da música de LaMar Gay, apenas detectamos sintomas brasileiros aqui e ali, exemplificados pela palavra “madrugada” que brota de surpresa na faixa “I am (bells)”.
Afinal, não era maracatu, mas isso explica ainda melhor a sensação que surge com esse álbum: a música de Ben LaMar Gay é mais ou menos sobre a incapacidade de se inferir uma linha genealógica clara na música popular. O músico pesquisa como a cultura se modifica, se ramifica, é acrescida de experiências íntimas e pessoais cada vez que é cantada por alguém, e assim segue se transmutando indefinidamente, de geração em geração, através do tempo e do espaço em que passa. O que importa, no final, é a expressão.
E Yowzers é de fato um caldeirão expressivo. É um álbum composto para ser executado pelo quarteto formado por Gay, pelo percussionista Tommaso Moretti, o guitarrista Will Faber e o multi-instrumentista Matthew Davis. Nele, ouvimos momentos de intimidade – como a faixa gospel de abertura –, ritmos africanos e latinos, todos misturados com a música negra estadunidense, vinda de New Orleans, St. Louis, ou Chicago. Tudo isso é digerido e regurgitado como jazz, que parece ser a língua materna da banda.
De acordo com uma sinopse, “o material do quarteto se apoia em um vocabulário que o grupo desenvolveu ao longo de vários anos juntos na estrada, e oferece um coquetel impressionante de ritmos pulsantes e livres que de alguma forma balançam junto a uma reunião de frases melódicas que varrem os confins da harmonia com ecos nostálgicos de canções familiares da sala de estar”.
De fato, Yowzers nos dá a sensação de estarmos diante do nascimento de uma linguagem, algo fresco e um pouco incompreensível e que, assim como os idiomas do mundo, deriva de outras expressões anteriores e está em constante mutação. LaMar Gay concatenou um álbum realmente livre, sem concessões criativas e com identidade muito própria. Seja em polirritmos intercalados, seja em momentos de declamação de texto, feitos com toda a alma, Yowzers faz jus ao seu nome e pode te deixar embasbacado desde a primeira audição.
(Yowzers em uma faixa: “I am (bells)”)
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