Resenhas

Ben Marc – Breathe Suite

Prévia de aguardado disco solo, EP do multi-instrumentista londrino cria momento de reflexão política e artística sobre o jazz na contemporaneidade

 179 total views

Ano: 2021
Selo: Innovative Leisure
# Faixas: 4
Estilos: Free Jazz, Experimental
Duração: 19'
Produção: Ben Marc

É curioso como o jazz ainda traz uma aura mística e inalcançável para entusiastas da música. Por mais que existam expressões artísticas que tentam lutar contra este estigma, democratizando o gênero através de fusões com o pop e o hip hop, ele ainda parece de alguma maneira dizer respeito a um grupo seleto de pessoas. Seja pela complexidade dos arranjos ou o intenso estudo teórico que o acompanha, o gênero ainda conserva certo elitismo de conhecimento – e quanto mais livre e experimental sua vertente, mais labiríntico fica este sentimento de que é necessário um conhecimento prévio para que se possa apreciá-lo de uma forma “digna”. Um conhecimento que constrói a ideia de que é o jazz é algo muito complexo. Porém, a instauração deste estigma não vem sem uma reação contrária, já que alguns artistas procuram enxergar nesta aparente complexidade inatingível uma linguagem que comunica a todos de maneira eficaz e pontual. É nesse lugar que o multi-instrumentista londrino Ben Marc se encontra.

Ben Marc possui uma trajetória diversa, participando de inúmeros projetos de diferentes naturezas. Participou da Sun Ra Arkestra, uma continuação da obra da lenda do free-jazz, explorou o groove em contribuições de estúdio com Macy Gray e compartilhou melodias extasiantes com a cantora China Moses – para nomear alguns dos bem escritos capítulos de sua carreira. Apesar de trabalhar com diferentes propostas, há um denominador comum em sua obra: a facilidade como ele desmistifica o terreno do jazz para novos públicos. O ponto central de sua arte reside em seu talento como uma espécie de tradutor. E como parte deste ofício, seu trabalho não é escolher palavras mais simples, mas se apropriar das regras da língua original e apresentá-la em contextos que façam sentido. O jazz vem como recurso, e não uma barreira.

Com seu disco solo, Glass Effect anunciado para este ano. Ben optou por revelar algumas peças instrumentais antes do lançamento oficial. Breathe Suite é um curto EP construído sob duas peças ambiciosas (Breathe Suite A e B) e respectivas sessões de improvisos sob as mesmas (Breathe Improv A e B). Nelas, Ben assume a complexidade do jazz e de suas diferentes formas como a única linguagem possível para dar conta de um contexto igualmente intrincado. Há um trabalho preciso de pesquisa musical por entre diferentes elementos do gêneros – arranjos de metais quentes, cordas dissonantes, percussões marcantes –, mas também um ouvido atento para a forma como estes diferentes recursos se fundem para formar o produto final.

Em entrevista para Self-titled Mag, Ben conta que o movimento inicial para este EP veio da composição da primeira faixa – inicialmente pensada para o disco que ainda sairá. Porém, comovido pelo assassinato de George Floyd e a repercussão do movimento Black Lives Matters, a música passou de uma ideia de três minutos para um complexo universo de quase 8 minutos. Sua música não vem apenas de uma necessidade de explorar o Jazz como gênero musical, mas como instrumento de luta dentro da história negra na América. No texto disponível no site do selo Innovative Leisure, Ben conta sobre a sensação que quando se fala em música negra, há um tendência de unificar tudo sob um mesmo guarda-chuva, dando espaço para uma perspectiva eurocêntrica muito parecida com o que Tyler The Creator afirmou em seu discurso ao ganhar o Grammy na categoria Urban Music. Breathe Suite acaba funcionando de forma quase irônica – pois ao mostrar em uma canção os diferentes referenciais da música negra em uma mesma peça, potencializa o debate sobre o quão justo é enfiar tudo em uma mesma categoria.

O respiro a que o título faz menção é polissêmico. Pode ser um respiro em meio ao caos pandêmico – visto o flerte com a Ambient Music. Porém, este mesmo ar não foi respirado por George Floyd no momento de seu assassinato, e as tensões desta situação também ganham representações no EP.  Mesmo de curta duração, Breathe Suite é muito certeiro na forma como faz do jazz a linguagem propícia para trazer tantos temas. É um trabalho menos focado em destrinchar e expandir os limites da linguagem experimental do gênero. Aqui, o jazz vai além de um exercício estético e assume o papel de um recurso que serve como reflexo natural dos tempos em que vivemos: cheio de interpretações e camadas e que, a cada novo respiro, revela uma nova percepção.

(Breath Suite em uma faixa: “Breathe Suite A”)

 180 total views

ARTISTA: Ben Marc

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.