Resenhas

Ben Watt – Hendra

Metade de Everything But The Girl lança disco solo que confirma seu talento

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Ano: 2014
Selo: Caroline
# Faixas: 14
Estilos: Eletrônica, Pop, Folk
Duração: 58:59
Nota: 4.0
Produção: Ewan Pearce

Senhoras e senhores, que disco bonito. Para quem não sabe, Ben Watt é metade do Everything But The Girl, duo britânico simpaticíssimo, no qual ele respondia por todo o instrumental e sua esposa, Tracy Thorn, abrilhantava o painel com sua voz maravilhosa. O grupo lançou discos por treze anos, entre 1984 e 1996, quando Watt precisou se recolher para tratar de uma doença intestinal que o acometera que mudara a receita sonora do grupo, deixando as elegantes melodias arranjadas com cordas, violões, percussão econômica, num terreno que a imprensa inglesa gostava de chamar de New Bossa em favor de um som eletrônico, a meio caminho entre o Trip Hop e o Techno noventistas, principalmente a partir de 1994, com um remix que o produtor de Massive Attack, Nellee Hooper, fez para Missing.

Watt foi cuidar da saúde, lançou um livro sobre sua recuperação em 1996 e manteve contato com a música atuando como DJ, uma função menos complicada e cansativa que seguir excursionando com EBTG pelo mundo a fora. Sendo assim, Hendra pode ser considerado como o primeiro álbum solo de Watt, mesmo que ele assine algumas compilações de música Eletrônica ao longo dos anos 2000. Seria reducionista dizer que ele retorna à sonoridade da antiga banda em seu novo trabalho, mas não dá pra negar que, no mesmo mar de tranquilidade no qual ETBG se banhou, coexistem Pop setentista, AOR e Folk (no sentido John Martyn do termo), peças fundamentais para a existência do novo disco. Watt chamou o produtor Ewan Pearce, que já colaborou com M83 e Goldfrapp, radicado em Berlim, para conferir uma certa ambiência contemporânea, visando contrabalançar a mistura eletroacústica que Watt concebeu como se estivesse nas paradas de sucesso de 1975. Além de Pearce, a presença de Bernard Butler, ex-guitarrista do grupo Suede, confere profundidade às canções, dando-lhes sangue e carne sem que elas ultrapassem o limite da elegância sutil.

A faixa título, que abre o disco, é bem representativa dessa sonoridade “leve, porém viva” que Watt busca. Os dedilhados de violão, as levadas no Fender Rhodes e os pequenos comichões de guitarra de Butler dão relevo e alma à canção. Forget é uma típica melodia AOR setentista, com arranjo econômico e lembram bastante o que o sumido noruguês Sondre Lerche costuma fazer. Spring é uma beleza de melodia, introduzida por piano belo e guitarra sutil, novamente com ambiência de parada de sucesso de 1974, com direito a cena de mocinha chorando no quarto pelo amor que se foi. Os tais violões nublados dão início a Golden Ratio, que é conduzida por percussão sutil e teclado discreto. A voz de Watt plana sobre a paisagem musical, absoluta e muito bonita. Matthew Arnold’s Field é outra beleza conduzida por piano, teclado ambiental e a voz gentil de Ben.

The Gun é o mais próximo que Watt chega do mitológico John Martyn, contemporâneo de Nick Drake, que foi capaz de forjar um misto Folk/Jazz muito bonito e lírico. Nataniel, a próxima canção, é conduzida por uma levada aerodinâmica, pontuada por guitarras e chegaria a lembrar uma das primeiras incursões de Camera Obscura, não fosse a guitarra de Butler, que faz pesar o arranjo com intervenções bluesy de primeira grandeza. A slide guitar de ninguém menos que David Gilmour, chefe do instrumento no Pink Floyd, confere brilho a The Levels, linda que só. Young Man’s Gun tem algo de beatle na melodia e o andamento também contribui para seu jeitão de balada mccartneyana de boa safra. The Heart Is A Mirror, cheia de sintetizadores múltiplos, usados a serviço da discrição total, encerra o percurso do disco, com elegância e calma. A edição de luxo ainda traz três versões demo (Hendra, Spring e Young Man’s Game) e uma leitura ao vivo de Forget.

Watt mostra que está vivo, bem, operante e pronto para reiniciar uma carreira de sucesso, condizente com seu talento. Ele deu esse passo em direção ao retorno aos braços do público com um trabalho acima de qualquer suspeita e muito bonito. Conheça.

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ARTISTA: Ben Watt
MARCADORES: Eletrônica, Folk, Ouça, Pop

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.