Resenhas

Beth Ditto – Fake Sugar

Ex-vocalista do grupo Gossip volta com bom álbum Pop

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Ano: 2017
Selo: Capitol
# Faixas: 12
Estilos: Pop Alternativo, Rock Alternativo
Duração: 42:06
Nota: 3.5
Produção: Jenn Decliveo

Você lembra daquela bandinha Gossip? Se lembra, certeza que você o faz por conta de Beth Ditto, ex-frontwoman e uma das presenças fortes da música alternativa da primeira década do século. Dona de boa voz e carisma, Ditto era, de fato, a alma do grupo, formado no Arizona em 1999 e sumido desde 2012. Agora a moça ressurge em carreira solo, com este simpático Fake Sugar, seu primeiro trabalho neste novo-velho formato. Sim, o paradoxo temporal se aplica porque já vimos inúmeras vezes um integrante de banda – quase sempre o vocalista – achar-se suficientemente capaz de carregar o mundo nos ombros e, após briga de egos e do fim do grupo, voltar com a ajuda da familiaridade e da nostalgia de seu velho público. Isso se aplicaria a Ditto, caso ela voltasse com vontade de recriar o roquinho guitarreiro de outrora, mas sua ideia aqui é bem diferente. Com cara e coragem, a moça fez um bom disco num estilo que se tornou inexplicavelmente raro hoje em dia: o Pop Rock.

São boas canções, todas compostas por Ditto em parceria com membros de sua banda, incluindo a produtora Jenn Decilveo, marcadas por inflexões estruturais do bom e velho popão de refrãos e melodias assoviáveis. A roupagem conferida a elas parte sempre de um bom uso de guitarras e teclados, embebidos por baixo e bateria, sem muitas firulas e efeitos, tornando o álbum interessante justo por seu (suposto) anacronismo em termos de Pop. Ditto sempre foi uma espécie autoconsciente de antidiva, calcando seu magnetismo em performances explosivas ao vivo. Aqui ela deixa de lado essa preocupação – saudável – e parte para fazer bom uso de sua voz e testar seus talentos de artesã no ofício de compositora, saindo-se muito bem. Ainda há alguns ecos de modernidade datada do início dos anos 00, quando houve a ótima leva de bandas de Dance Punk, prateleira da qual Gossip participou. Resumindo: a coisa flui muito bem por todos os cantos de Fake Sugar.

Esta nova persona Pop que Ditto assume aqui tem algumas surpresas para quem se familiarizou com ela à frente de Gossip. Por exemplo, a épica canção We Could Run, com teclados solenes, clima esvoaçante e bateria noventista, é, certamente, algo novo. O cuidado que ela tem para diversificar seu canto e estender seu alcance é notável e bem intencionado, proporcionando bons momentos em canções ótimas: Oo La La é uma boa apropriação da modernidade de Blondie, com ótimo trabalho de bateria e guitarras chacoalhantes por toda parte. A faixa-título é uma simpática ciscada no terreiro de bandas como Vampire Weekend, especialmente no que diz respeito às guitarras afronerds que a banda novaiorquina gosta tanto de usar. Além da citação delas, Ditto realmente faz bonito como cantora, seja na voz principal, seja nos vocais de apoio. Go Baby Go é uma delicinha cremosa em termos de citações ao Pop sessentista, que se transformam em andamento apunkalhado e sexy ao longo da faixa, com ótimo resultado dançante.

Os teclados épicos retornam na abertura de Oh Ny God mas a faixa vai para outro caminho totalmente diferente, beirando o que Garbage tenta fazer hoje em dia, enquanto a maior surpresa vem com Love In Real Life, uma balada solene e romântica como não se vê hoje em dia. Um olhar carinhoso para os anos 1980 não poderia faltar e ele vem na forma de Do You Want Me To, redondíssima e cheia de virtudes instrumentais. Lover é mais um número que oscila entre o solene e o Pop oitentista, mas num âmbito mais manso e romântico, abrindo caminho para o fecho com a adorável Clouds (Song For John), outra baladinha.

Beth Ditto faz um desses discos raros nos quais um artista se posiciona para conquistar novo público sem perder o antigo. O pessoal que gostava de sua antiga banda pode estranhar a doçura e o domínio do idioma Pop clássico, mas, caso não reconheça as virtudes do álbum, estarão perdendo uma ótima chance de conhecer belas canções. Surpreendente.

(Fake Sugar em uma música: Oo La La)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.