Resenhas

Big Thief – Dragon New Warm Mountain I Believe in You

Alta qualidade de composição e execução faz com que cada detalhe do álbum duplo da banda americana seja percebido, apreciado e sentido

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Ano: 2022
Selo: 4AD
# Faixas: 20
Estilos: Rock Alternativo, Indie, Folk
Duração: 80'
Produção: James Krivchenia

“A essência do que é ser banda, do que é fazer música, do que é gravar um disco”. Minha primeira anotação ao escutar o que Big Thief fez em seu quinto álbum saiu espontaneamente em uma audição que misturou a surpresa de testemunhar um grupo – que eu até já admirava – se superar tanto e a beleza sublime presente na uma hora e 20 minutos de Dragon New Warm Mountain I Believe in You. Poderiam ser palavras soltas de um fã qualquer, mas foram fruto de um encadeamento de ideias de alguém que não apenas nunca se viu como grande seguidor da banda, mas também – admito – deu o primeiro play no disco duplo a contragosto, por mera obrigação.

Ao final de “Change”, a primeira faixa, meus ouvidos já estavam abraçados pelo clima de cantoria orgânica, de algo feito ao redor de uma metafórica fogueira. O álbum se revela, camada por camada, como uma obra convidativa, que insere o ouvinte no meio de sua ação. Ao contrário de tantos discos que fazem isso ao criar um grande volume sonoro que ocupa todos os cantos dos nossos ouvidos (e nos passa a sensação de estarmos cercados pelos músicos), DNWMIBY opta por uma sonoridade um tanto crua e abafada, com cara de gravação ao vivo – com um volume no geral mais baixo, sem o verniz hi-fi que apresentaria essas músicas. Algumas delas, como “Certainty”, parecem ter sido encontradas em alguma fita cassete empoeirada.

Muito mais do que apenas contribuir com uma sensação mais orgânica na audição, essa escolha estética acaba por comunicar muito melhor o conceito da imersão. O ouvinte se percebe não só experimentando as músicas como se elas estivessem nascendo ali na sua frente, mas no mesmo nível dos músicos. Ou seja, temos a oportunidade de vivenciar a obra ali, ao lado de quem nos proporciona a experiência, da mesma maneira com que eles observam o disco ser produzido. Só isso já valeria a audição.

Bem, é claro que há muito mais a se dizer sobre DNWMIBY, a começar por seu repertório superlativo. O valor das composições é impressionante, mesmo quase todas as músicas sendo dotadas de uma certa simplicidade, como se não tentassem chamar tanta atenção (e falham miseravelmente, visto que vários momentos do álbum estão entre o frio na barriga e as lágrimas). A interação entre os membros do grupo e seus convidados, como Mat Davidson (Twain), é um grande convite emocional e estético a cada faixa.

Todo o disco (ou os dois álbuns que compõem a obra) passeia por terrenos que o público do Rock Alternativo conhecerá muito bem, de uma beleza folk na maior parte do repertório a uma tensão soturna em momentos como “Blurred View”. É familiar, é simples, e é cativante. Com cerca de um minuto e meio de duração, “Heavy Bend” é um dos melhores exemplos do que esse lançamento é: com aparente despretensão, a alta qualidade de composição e execução faz com que cada detalhe seja percebido, apreciado e sentido.

Ou seja, Big Thief, uma banda que já se mostrava superior às suas contemporâneas, crava agora seu lugar absoluto no rock alternativo, no indie ou onde quer que você queira situar o quarteto. Particularmente, prefiro deixá-lo ali em seu canto, separadinho para qualquer dia que precise de música que preenche o corpo inteiro. Para os fãs dessas categorias, incluindo essa minha última, temos aí não só um dos grandes lançamentos da temporada ou do ano, mas desta geração. É um disco como sonhamos que os discos sejam, a tal “essência” que escrevi acima – em meio a uma mistura entre alegria e amargura por saber que não direi algo semelhante de outro álbum tão cedo.

(Dragon New Warm Mountain I Believe in You em uma faixa: “Spud Infinity”)

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ARTISTA: Big Thief

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.