Resenhas

Billie Marten – Flora Fauna

Terceiro disco da compositora britânica revisita o conceito de “fuga da cidade” a partir de investigação emocional intensa e toques experimentais pelo Folk

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Ano: 2021
Selo: Fiction Records/Universal Music
# Faixas: 10
Estilos: Folk Pop, Chamber-Pop
Duração: 35'
Produção: Rich Cooper e Billie Marten

Nas aulas de literatura da escola, ao estudar os autores da escola literária do Arcadismo, volta e meia nos deparávamos com o conceito de fugere urbem. Em uma tradução simplista, o termo diz respeito ao desejo desses autores de viverem no campo, uma vez que consideram a cidade um lugar insalubre e pouco propício para que a criatividade aflore. A cidade era claustrofóbica e a natureza, libertadora. Quase 220 anos depois, percebemos que parte deste pensamento ainda existe e muito entre as pessoas. Particularmente em um contexto de pandemia, as pessoas cada vez mais reconsideram a necessidade de se submeter a um ambiente tão enclausurado e o campo torna-se mais uma vez um lugar para escapar de tudo isso. Na música, isso tem um reflexo direto naqueles artistas que procuram se isolar para compor seus discos e remoer seus sentimentos: seja a cabana da bad amorosa de Bon Iver, em For Emma, Forever Ago (2008), ou a chácara com os amigos que resultou em Ventura (2003), de Los Hermanos.

Particularmente para Billie Marten essa relação de fugir da cidade é um pouco mais complexa do que uma sensação de escapismo. Há sempre uma motivação profunda impulsionando a jovem de 21 anos para dentro de si, e para onde quer que ela vá, esses sentimentos continuam com ela. Desde seus 18 anos, a cantora e compositora britânica tem produzido discos extremamente sensíveis e de uma investigação sentimental muito profunda. Sua sonoridade trouxe, desde cedo, referências do lado mais blue do Folk, como Joni Mitchell e Nick Drake, mas também revela cantos mais voltados para o teatral, como Kate Bush. Sempre ficou muito claro que ela não era apenas uma singer-songwriter melodramática. Havia uma disposição de investigar todo esse rebuliço emocional, com uma sonoridade mutante que evita se acostumar em um mesmo lugar. Com seu terceiro disco, Billie revisita o tema de fugir da cidade, ao mesmo tempo que incorpora novos elementos à sua sonoridade.

Flora Fauna traz uma nova perspectiva da obra de Billie. Fugir da cidade é quase um retorno às suas origens – uma vez que, quando (ainda) mais jovem saiu de uma cidade pequena para morar em Londres, e agora realiza o movimento contrário. Porém, em entrevista para NBHAP, Billie comenta que a ideia nunca foi de fazer um disco escapista, de fugir das suas demandas e responsabilidades a fim de viver das coisas que a natureza dá. Ir para o campo é uma possibilidade de revisitar aquilo que já é parte de sua história. Fugir da cidade e compor entre a flora e fauna desse ambiente natural traz novas formas de ressignificar aquilo que viveu em 21 anos, explorando temas como relacionamentos abusivos, autenticidade, vulnerabilidade e medos.

Toda esta complexidade tem um reflexo direto na evolução da sonoridade. Enquanto aquele teor Folk ainda permanece emaranhado nas narrativas e versos, há um aspecto mais afrontoso por entre as partes instrumentais. Referências mais experimentais, de certa maneira, começam a ganhar espaço, como Fiona Apple e Arthur Russell. Billie até mesmo abre espaço para colaborações, dentre as quais a que mais se destaca é a de Guy Garvey, vocalista do Elbow, uma das maiores referências do Indie britânico. De certa forma, o som corrobora com esta proposta de vai e vem emocional. Há tanto um respeito pela tradição Folk, quanto uma urgência em se procurar novas características que deem conta de expressar as histórias da cantora e compositora. Mas Billie não faz questão de que seja algo tão preciso assim, pois a área nebulosa, construída pelos instrumentos subjetivos e letras poéticas, é o que traz uma aproximação com o ouvinte muito preciosa.

“Garden Of Eden” define um tom inicial mais soturno, com baixo arrastado e pesado para compreendermos o tanto que há de ser carregado por Billie. “Human Replacement” continua nessa dinâmica esquisitona, mas imprime alguns elementos mais brilhantes para dar um aspecto tanto de lamúria quanto de superação. “Heaven” parece que está sendo reproduzida artificialmente em um andamento mais lento, porém constrói nessa base camadas de piano e instrumentos mais exóticos para deixar claro a natureza paradoxal de suas emoções. “Pigeon” se aproxima mais do típico singer-songwriter, nos situando em um terreno menos experimental, como forma de acolhimento que tanto nós quanto a própria Billie precisam nesta jornada. “Aquarium” termina o disco ressaltando o talento vocal da cantora, com uma faixa instrumental mais branda e que deixa ela encerrar esta viagem à sua maneira.

Billie Marten repagina o termo fugere urbem, pois nunca tentou fugir de sua história. Flora Fauna é, portanto, o seu disco mais maduro até então. Não apenas porque Billie está mais velha, mas porque escolhe não fugir de seus problemas, adotando uma postura de voltar a territórios antigos para transformar suas vivências em narrativas densas e repletas de brilho.

(Flora Fauna em uma faixa: “Aquarium”)

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ARTISTA: Billie Marten

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.