Resenhas

billy woods – Aethiopes

Veterano do underground de Nova York une sua lírica intrigante às raízes familiares africanas e entrega um dos melhores discos de rap do ano

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Ano: 2022
Selo: Backwoodz Studioz
# Faixas: 13
Estilos: Alt-Rap, Rap Underground
Duração: 39'
Produção: DJ Preservation

O veterano rapper billy woods é figurinha carimbada no rap alternativo de Nova York, mas ainda assim, desafia categorizações simples. Filho de uma professora jamaicana de literatura e de um pai pensador e escritor marxista com PhD e membro ativo na Guerra Civil da Rodésia (atual Zimbábue), o rapper nasceu em Washington D.C., mas passou boa parte de sua infância em Zimbábue, até retornar da África para viver em Nova York, após o falecimento do pai. Essa formação faz com que, no microfone, woods seja quase sempre enigmático, aquele clássico rapper que dá trabalho pros anotadores do Genius.

Vindo de excelentes trabalhos solo como Hiding Places (2019), produzido por Kenny Segal, e os notórios álbuns Shrines (2020) e Haram (2021) em parceria com ELUCID, com quem forma o duo Armand Hammer, billy woods retorna com Aethiopes (2022), um disco em que explora sua capacidade não apenas de abordar tópicos com os quais outros artistas nem sonhariam, mas também de trazer perspectivas únicas para assuntos mais familiares. Em entrevista a FADER, billy afirmou que este é seu “maior e mais amplo álbum conceitualmente”. Isto se reflete no título “Aethiopes”, uma palavra com uma definição incerta. Historicamente, foi usada para se referir a pessoas de pele escura que viviam em certas áreas do continente africano (especificamente no sul do Saara, mas também no alto Nilo). No entanto, o uso moderno normalmente alude ao país da Etiópia.

Para esta missão de retorno à terra natal de seu pai, o fundador da gravadora Backwoodz Studioz conta com outro veterano de guerra: o produtor Preservation. Com cerca de 20 anos de carreira, o seletivo e profundo pesquisador musical já atuou como DJ de Yasiin Bey e foi parceiro do rapper Ka em Days With Dr. Yen Lo, disco composto inteiramente de samples escavados de músicas de Hong Kong. Dois atos significativos no currículo do produtor que o colocam como o nome ideal para este projeto. Com Preservation no comando das batidas em todas as faixas, Aethiopes vai do leste ao sul africano através de épocas, países e culturas, dando um pulinho ainda na Jamaica, onde nasceu a mãe de billy woods.

“Asylum”, a primeira faixa do projeto, já é um baita cartão de visitas. billy woods abre a faixa com a linha: “I think Mengistu Haile Mariam is my neighbor”. Mengistu Haile Mariam foi o chefe do governo socialista da Etiópia de 1977 a 1991. Ele fugiu do país no final de seu reinado e buscou asilo (daí o título da música) no Zimbábue. No contexto da música, a história de Mengitsu serve como alegoria para billy woods descrever sua infância no Zimbábue, em uma família abastada mas que está desmoronando, tudo isso dentro do contexto político turbulento da época. “Downstairs I hear my mother breaking dishes, my father trippin’/ It’s been quite bad lately, high tension”. A música é encerrada – fazendo a conexão entre billy e Mengitsu – com um trecho do filme nigeriano Kongi’s Harvest (1970), que descreve o lado mais sombrio de se viver em uma “gaiola dourada”.

Os pianos soturnos e metais aterrorizadores da primeira faixa, que remetem a sons do nordeste africano, percorrem todo o projeto, e são excelentes companhias para o flow rastejante de billy woods — ora spoken word, marcado e militaresco, ora persuasivo como quem encanta serpentes. Continuando enraizado em África, “Wharves” traz uma percussão aquática, com uma força ancestral semelhante à evocada por Naná Vasconcellos em “Batuque nas Águas”. “Sauvage”, uma das faixas mais obscuras do projeto, conta com a excelente participação de Boldy James e Gabe ‘Nandez, com metais que soam como se almas estivessem fazendo-os vibrar e um baixo tensionado e característico como se Shao Khan, o vilão de Mortal Kombat, tivesse tocado.

Uma coisa que é impressionante em billy woods é seu talento para primeiras linhas em um rap (uma arte subestimada nos dias de hoje), e Aethiopes é repleto delas. Seja em “Nynex” com “The future ain’t flying cars, is Rachel Dolezal absolved” ou “Life gave me lemonade, I pour in my spirit of choice”, o nova-iorquino tem um talento especial para capturar o ouvinte logo nos primeiros segundos. O ritmo instrumental sombrio e sufocante da maioria das faixas é sabiamente suavizado com momentos de respiro, como é o caso de “Christine”, que se inspira no romance de Stephen King, ou “Remorseless”, logo antes do fim do projeto.

Repleto de momentos memoráveis, Aethiopes talvez peque um pouco no excesso de participações, que nem sempre conseguem ser tão nerds quanto billy woods, mas ainda assim, cada faixa poderia render um comentário próprio, tamanha a qualidade dos raps do disco. Com samples de Kongi’s Harvest amarrando o conceito, billy woods ainda acha tempo para homenagear MF DOOM em “Haarlem” e rimar em um sample de dub-reggae diretamente da terra natal de sua mãe. Soma-se uma lírica intrigante e significativa em seus temas com a produção acertada de Preservation, e Aethiopes já se coloca como um dos melhores discos de rap do ano.

(Aethiopes em uma faixa: “Sauvage”)

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ARTISTA: billy woods