Resenhas

Bixiga 70 – Bixiga 70

Terceiro álbum do grupo paulistano alia fusão de ritmos e estilos com composições meticulosas

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Ano: 2015
Selo: Independente
# Faixas: 9
Estilos: Afrobeat, Samba Jazz, Afropop
Duração: 45:02
Nota: 4.5
Produção: Bixiga 70

Como se fosse uma simpática e marcante força da natureza, o grupo paulistano Bixiga 70 retorna ao disco com precisão e oportunidade. Após um tempo necessário passado na estrada, nos estúdios e nas colaborações com outros artistas, o deceto entrega-se à produção de mais um envelope sonoro, no qual sempre oferece ao ouvinte uma mistura harmoniosa e bem azeitada de ritmos. Reduzir o grupo a um mero combo contemporâneo que faz sons decalcados das origens Afrobeat e/ou Afrojazz é um exercício de empobrecimento na análise de sua música. Não iremos cometer este equívoco.

Catapultado nos anos mais recentes por conta das incursões de músicos brancos como Damon Albarn, o Afrobeat se incorporou ao leque de sonoridades afeitas aos ouvidos mais arejados, sobretudo ao pessoal que abraça as bandas e artistas independentes. A liberdade de formas, da não-necessidade de letras, a proximidade com formas musicais mais generosas são fatores que favorecem grupos como Bixiga 70, capaz de proporcionar ao ouvinte uma viagem musical por mares e paisagens raramente visitadas. Não se trata do clichê da World Music, mas da malandragem em misturar ritmos mundanos e urbanos a matrizes que parecem preservada em suspenso no tempo. Dessa lógica saem rótulos adoráveis – e compreensíveis – como Blaxploitation Cubana ou Afrojazz, ainda Neocarimbó, tudo perdoado e assimilado à euforia rítmica que está em ponto de bala nos trabalhos do grupo.

Este terceiro álbum, homônimo como seus antecessores, é fruto de uma nova variação nos ciclos da banda. Se as canções antes eram compostas na estrada, ao longo das turnês, fruto da espontaneidade do momento, agora são o resultado de um período de 45 dias no estúdio Traquitana, a casa do Bixiga 70, onde foi possível burilar e aprimorar ainda mais o resultado. Saem das caixas de som uma maçaroca sonora mais densa, mais bem acabada, ainda bastante espontânea e com um saudável aroma de música cosmopolita, cidadã do mundo. Destaque imediato recebe 100%, tão cheia de influências, alternâncias e possibilidades para a música instrumental negra de uma maneira geral, que classificá-la é algo quase impossível. Tempestades de metais, baixo e bateria irmanados, percussão trovejante e uma indistinta estrutura eletrônica sutilíssima, fazem da canção um Frankenstein de ritmos, algo muito bem feito e bem pensado. Di Dancer veio pra confundir, não para explicar. Tem início percussivo, guitarras Highlife e metaleira que se aproxima na calada da noite, com impressão de chegada em poucos instantes, até que um clima de trilha sonora de Shaft se instala e pensamos que tudo seguirá assim até que uma guinada em direção à Conexão Caribe é dada e o panorama muda para a dança inapelável.

A relação de contraponto entre Machado e Martelo é admirável. A primeira é moderníssima, pulsante, eletrônica sem ser e capaz de baterias, percussões e levada de teclados espinhosa em meio a metais em brasa. A segunda é o oposto, rápida, com guitarras em chacundum e cheia de credenciais para ser trilha sonora de sacolejos mil em vários pontos do planeta. Outro destaque é a bela Mil Vidas, brasileira até a medula, com flautas, pífanos, percussão agreste e guitarras que podem ser Reggae, Highlife ou proveniente de alguma moda de viola que viajou demais pelos sertões atemporais. O encerramento com a impressionante 7 Pancadas é um pequeno resumo musical de elementos da brasilidade e de como eles se conectam ao todo que surgiu da diáspora africana desde que ela surgiu, há mais de cinco séculos.

Ouvir Bixiga 70 é testemunhar uma banda cuidadosa e dona de invejável senso musical, que faz suas canções com método mas não abandona a espontaneidade. Se conseguir manter o equilíbrio entre ritmos sem ceder ao modernismo vazio, sempre será uma espécie de reserva moral na música feita deste lado do planeta. Obrigatório.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.