Resenhas

Björk – Vespertine

No seu quarto disco de estúdio, a islandesa toma caminhos radicalmente diferentes de seu trabalho anterior para criar um resultado minimalista, mas igualmente impactante

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Ano: 2001
Selo: One Little Indian Records, Elektra Entertainment
# Faixas: 10
Estilos: Experimental, Alternative Pop, Eletrônico, Avant-garde, Ambient, Art Pop, Folktronica
Duração: 43’
Nota: 4.5

Antes de mais nada eu preciso confessar que, da primeira vez que ouvi Vespertine (2001), não consegui me relacionar com a obra. A Björk que eu conheci pelo Medúlla (2004) e pelo Homogenic (1997) era muito mais expansiva, agressiva, “in your face”. “Onde é que ela foi parar?”, me perguntei enquanto ouvia as primeiras faixas de seu quarto disco de estúdio. A ideia de escrever esse texto veio também, em parte, por um desejo pessoal de aprofundar-me nas ideias da cantora para este álbum e ver se, depois disso, eu conseguiria mudar a minha relação com ele. Bom, pela nota ali em cima, vocês já devem imaginar que o resultado foi positivo.

Para entender melhor Vespertine, é preciso olhar novamente para Homogenic. Primeiro porque, segundo a própria Björk, a última canção do LP de 1997 (“All Is Full of Love”), já pode ser considerada o primeiro elemento dessa nova fase. A faixa vem logo depois de “Pluto”, em que o eu-lírico da islandesa anuncia sua auto-explosão para renovar-se por completo depois de uma catarse. Por isso, “All Is Full of Love”, torna-se o prelúdio de uma nova fase em que o amor (e o sexo) são questões centrais para a artista. Para além disso, o poema “Techno Prayer”, que deu origem à canção “All Neon Like”, ainda do Homogenic, também é descrita pela cantora como um ensaio do que viria se tratar o próximo disco: “Eu teço para você / A maravilhosa teia / Fios que brilham no escuro / Tudo como neon / O casulo te cerca / Envolve tudo / Para que você possa dormir / Como um feto”

Vespertine, principalmente em suas primeiras músicas, fala sobre o começo de um novo amor. Na época em que compunha o álbum, Björk estava mergulhando cada vez mais fundo no seu relacionamento com o artista norte-americano Matthew Barney que, durante o processo, a pediu em casamento. Confesso que esse encantamento do amor-romântico também não era um assunto que me atingia tão gravemente quanto os temas ontológicos explorados pela artista em seus outros discos. Mas, ao terminar de ouvir com mais atenção, percebi que o contraponto amargo se infiltra nas letras e melodias exploradas aqui. Vamos a eles.

“Eu queria seguir um caminho totalmente oposto ao do Homogenic”, revela Björk no documentário Minuscule (2003) que se debruça sobre os processos por trás da Vespertine Tour. “Enquanto no Homogenic, estávamos fazendo um som bem ‘masculino’ e agressivo – usávamos praticamente só um beat (muito forte) por música –, em Vespertine quis construir microbeats que pudessem se sobrepor. Então, temos faixas com 30, até 40 beats diferentes em sua composição.” Este, na verdade, deve ser o exato paralelo melódico com as agruras descritas nas letras. O disco fala, sim, de amor e de sexo e, em alguns momentos, com delicadeza e refinamento imagético surpreendentes; mas, ele também evidencia o outro lado da moeda. Björk, que acabou de passar por uma explosão e redescoberta de seu “eu” em Homogenic, agora tem que abrir mão de algumas coisas para conseguir manter-se em um relacionamento. Essa angústia encontra sua melhor descrição no hit “Pagan Poetry”, que refere-se ao tal pedido de casamento e a reação mais dolorida do que apaixonada da cantora ao receber a proposta: “Na superfície, simplicidade / Mas, a cova mais escura está em mim / É poesia pagã”, anuncia antes de admitir o seu amor e a impossibilidade de deixá-lo para trás, mesmo que isso tenha algumas implicações para ela.

Essa dualidade entre comprometer-se amorosamente e ser quem se é sem abrir concessões permeia quase todas as músicas, mas aparece com mais clareza em “Harm Of Will”, “An Echo A Stain” e na extraordinária “Unison”, que fecha o disco. Aliás, esse embate também parece ser o ponto de partida para que Björk, em uma situação de introspecção – totalmente diferente de seu passado explosivo – parta para uma estratégia de complexificação sonora, um dos fatores mais excepcionais de Vespertine. A cantora criou uma espécie de biblioteca de sons não-instrumentais que, posteriormente, serviram para compor os tais microbeats a que ela se refere no documentário. Pense em banalidades como o barulho que o gelo faz ao quebrar-se até propostas mais desafiadora como o descolar das pétalas de uma flor quando ela desabrocha.

Quando eu descobri todo o empenho da artista em ir atrás de cada um desses sons e, de modo geral, ter se dedicado tão ativa e minuciosamente na produção do disco, percebi que a Björk de Homogenic ainda estava ali. Evidentemente, a roupagem é outra, mas o mergulho, os esforços criativos, as elaborações linguísticas e a entrega emocional permanecem em Vespertine. Com letras mais confessionais e diretas (“Vamos ficar juntos / A gente não deveria brigar / Vou te abraçar apertado / Vamos nos unir nesta noite” – canta em “Unison”), a islandesa continua trabalhando suas contradições internas, seus paradoxos e, acima de tudo, sua posição corajosa frente ao seu intrincado universo emocional.

(Vespertine em uma música: Unison)

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