Resenhas

Björk – Volta

Em 2007, com um LP de musicalidade variada, Björk está atenta ao desejo de vingança da mãe-natureza ao mesmo tempo em que produz um manifesto pagão para a humanidade se unir frente a possibilidade de um apocalipse

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Ano: 2007
Selo: One Little Indian Records, Polydor
# Faixas: 10
Estilos: Experimental, Alternative Pop, Eletrônico
Duração: 51’
Nota: 4

“Eu estaria mentindo se dissesse que o disco não é uma reação ao estado do mundo hoje em dia. Em janeiro, eu fui para a Indonésia, para a área onde o tsunami atingiu com mais brutalidade. Só de ver um vilarejo de 300 mil pessoas em que 180 mil delas morreram… E ainda tem gente cavando, desenterrando pessoas. Dava para sentir o cheiro de cadáveres e de ossos”, relembra Björk ao explicar o ponto de partida de Volta (2007). “O tsunami meio que descola as casas do chão. Sobra só o piso. As pessoas com quem eu estava, por exemplo, encontraram o vestido favorito de sua mãe na lama. Foi horrível. No fim das contas, a raça humana é uma tribo. Vamos encarar esse fato e parar com essa merda religiosa. Acho que uma boa parte do mundo está simplesmente exausta dessa auto-importância que as pessoas religiosas se dão. Para com isso! A gente é só animal, então vamos fazer uma única batida universal. Somos pagãos, vamos marchar.”

Dizem que este é o pior (ou o “menos resolvido, mais confuso”) disco da cantora islandesa. E, de fato, eu não vou discordar. Volta ensaia um retorno à fase de Debut (1993) e Post (1995) que não se materializa por completo. Assim, o resultado é um disco que não se alinha entre um álbum totalmente conceitual, com narrativa lírica e musical coordenadas, ou uma miscelânea verdadeiramente deliberada em que os contrastes radicais são intencionais e vão equilibrando os sabores de uma obra. Neste LP de 2007, acima de qualquer coisa, a cantora precisava pautar questões que, para ela, eram consideradas urgentes e Volta foi uma das maneiras de manifestar essas preocupações.

A possibilidade de um apocalipse enquanto vingança da mãe-natureza parece ser o fio condutor do álbum. Colocando as letras das músicas em perspectiva, a impressão que fica é que todas elas podem ser interpretadas como uma reação, ou um questionamento, ou uma lembrança que partem dessa constatação. A faixa de abertura “Earth Intruders”, por exemplo, é claramente uma proposta para que a humanidade se una, compreenda o seu lugar no mundo, e passe a agir com mais responsabilidade. Não à toa, é uma marcha.

Ela, assim como “Hope” e “Innocence”, curiosamente, levam a mão de ninguém menos que Timbaland na produção. Na época, ele era o hitmaker da vez (tinha acabado de estourar com o FutureSex/LoveSounds [2006] de Justin Timberlake) e todos imaginaram que a parceria viria de um desejo de Björk por ganhar um som mais comercial. Em entrevistas, evidentemente, ela negou que essa fosse sua ideia. “Eu quero descobrir como as nossas sonoridades se sobrepõem”, e, realmente, foi isso que aconteceu com Volta. Os riffs e beats de repetição rápida de Timbaland estão lá, mas a composição final está muito, muito longe de um hit radiofônico da Nelly Furtado. “Innocence”, por exemplo, podia ter saído do Yeezus (2013), do Kanye West, com tranquilidade – aliás, uma das melhores do disco.

Ainda nos destaques, vale lembrar de “Wanderlust” que, segundo a própria Björk, é o coração do disco: “Esse desejo de, o tempo todo, continuar querendo, continuar desejando. Essa insatisfação que parece mover a gente para os lugares.” Igualmente emocionante é a terceira faixa “The Dull Flame Of Desire” que conta com uma participação de ANOHNI. Aqui, elas fazem um dueto apaixonado cantando uma versão traduzida de um poema russo de Fyodor Tyutchev. E para quem sentia saudades da porradaria eletrônica da cantora, “Declare Independence” é perfeita: irritada, anti sistêmica, agressiva e política, a canção tem produção de Mark Bell (grande parceiro de Björk durante quase toda a sua carreira) e marca um dos momentos mais grandiosos de Volta.

Liricamente, esse não é um dos melhores fluxos de Björk e musicalmente, ela me parece suspensa entre duas possibilidades mais redondas. Volta definitivamente não é o disco mais coeso da islandesa, mas, ainda assim, principalmente considerando o assombro Pop do começo dos anos 2000, é um álbum acima da média. Por mais que ele, como um todo, não consiga ter o mesmo impacto de um Homogenic ou um Medúlla, as canções que se destacam são realmente impactantes e funcionam muito bem.

(Volta em uma música: Wanderlust)

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